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Resenha

As Meninas, de Lygia Fagundes Telles: uma resenha sincera do clássico brasileiro

Por Márcia Lira em 17/06/2026

Cenas de tanques de guerra nas ruas, diante de protestantes de queixo erguido, cartazes de “Tortura Nunca Mais” e a melodia de “Caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento…”, de Caetano Veloso, são evocadas quando citamos a ditadura militar brasileira. Um imaginário simbólico, mas que representa apenas uma fatia fina do que era a rotina na época. Em meio ao caos político, existia a vida acontecendo: pessoas nascendo, amores sendo abençoados na igreja, homens levantando cedo pra trabalhar e mulheres criando um novo futuro. E esse viver, além da tensão, foi uma das coisas que mais me chamou atenção no livro As Meninas, de Lygia Fagundes Telles.

Narrativa em fluxo da consciência

O romance foi publicado pela primeira vez em 1973 e nos apresenta Lorena, Lião e Ana Clara, três jovens universitárias, que moram num pensionato de freiras na cidade de São Paulo. Mas não faz isso de um jeito comum, a narrativa de As Meninas é em fluxo da consciência, em primeira pessoa. O que significa que a escritora nos coloca vestindo a pele das personagens, acompanhando o caminho das suas mentes, tanto no que é visto, como no que é sentido ou pensado.

É um recurso famoso pela utilização em livros como o clássico Ulysses, do escritor irlandês James Joyce, que comecei a ler mas não aguentei. Insisti, insisti, mas abandonei o livro do mesmo jeito que comecei: sem entender nada com nada. Outra obra literária com essa pegada é Água Viva, de Clarice Lispector. Esse eu li e recomendo demais, é um livro que traz muitas reflexões existenciais, por meio das vivências de uma mulher. O curioso aqui é que a primeira publicação de Água Viva é no mesmo ano do lançamento do livro de Lygia: 1973, e não deve ser coincidência.

Lygia Fagundes Telles em foto antiga, mais perto do lançamento do livro As Meninas, em 1973
Lygia Fagundes Telles, foto do arquivo do Instituto Moreira Sales.

Mas voltando ao fluxo da consciência, em Água Viva, vivemos na mente de uma única mulher. Enquanto em As Meninas a gente cai no redemoinho de três pessoas ao mesmo tempo. Na primeira linha do livro, você já está dentro da cabeça de uma delas, com pensamentos em primeira pessoa misturados com percepções sobre o que acontece ao redor.

Só que na linha seguinte, você já assumiu a pele e a mente de outra personagem, assim, sem nenhum aviso. Às vezes você só percebe depois de ter avançado um pouco, e aí volta pra tentar entender e tem grandes chances de que não consiga. Porque é confuso mesmo, pois a gente nem conhece aquelas “meninas” e, quando menos esperamos, estamos acessando seus mais loucos devaneios.

Um início exigente

Agora se eu dissesse nesta resenha literária apenas que li As Meninas, de Lygia Fagundes Telles, e gostei, estaria mentindo. Não foi tão simples assim. Precisei racionalizar pra insistir e não abandonar a leitura. Pois como as vozes se misturam, a gente precisa fazer um esforço pra entender o que está acontecendo. E até desapegar de entender tudo, abraçar o caos.

As Meninas, de Lygia Fagundes Telles: uma resenha sincera do clássico brasileiro

Foi nessa hora que eu quase desisti. Mas decidi ir até a página 100. Pensei que se eu fosse até a página 100 e não gostasse, eu me permitiria abandonar esse livro. Mas eis que a mágica aconteceu. Quando se aceita o estranhamento de estar dentro de três cabeças femininas diferentes, você sente que começa a conhecer cada uma das meninas. E com o avanço das páginas, quando a perspectiva muda, a gente é capaz de dizer quem é a menina da vez pelo jeito de concatenar as ideias ou pelo conteúdo dos pensamentos. A experiência é parecida com a de reconhecer a opinião de uma amiga íntima, sabe?

E aí é que o livro fica bem gostoso. Temos a chance de acompanhar o miudinho das suas rotinas, sabendo como cada momento é percebido. Engraçado é perceber que o motivo que quase me fez desistir é justamente o aspecto que mais deixa esse livro especial, que é a narrativa em fluxo de consciência. Então sou agradecida à Márcia do passado que seguiu em frente, pois me fez saborear uma reconhecida obra-prima de uma escritora brasileira.

Quem são Lorena, Lia e Ana Clara?

Lorena é a personagem que mais aparece, é a base do romance. Sonhadora e lúdica, Loreninha estuda Direito e tem ótimas condições financeiras, o que a faz ser suporte financeiro para as outras duas amigas, com empréstimos e doações em dinheiro. O seu apartamento no pensionato é o lugar para onde as outras duas correm para serem acolhidas, ouvidas, ajudadas. Ao mesmo tempo, Lorena dedica um amor intenso a um homem casado, um médico que sequer dá o ar da graça no livro.

Trecho de As Meninas, de Lygia Fagundes Telles: uma resenha sincera do clássico brasileiro

No outro extremo do mapa das personalidades, temos Ana Clara, que é a mais bonita e também a mais problemática. Vemos a universitária cair num poço entre sexo e drogas, temos raiva dos homens que acabam se aproveitando dos seus estados de entorpecimento. Agora pensa comigo como Lygia Fagundes Telles pensava à frente do seu tempo, ao abordar de forma crítica situações de assédio, de abuso, a mulheres em situação vulnerável. Logo sabemos que ela é orfã de pai e mãe, e entendemos o impacto da desestrutura familiar e social ao longo do tempo na sua condição crítica.

O livro que driblou a ditadura militar

E antes de falar da terceira protagonista, é importante abordar outro aspecto que faz a diferença no livro: ele foi escrito em meio à Ditadura Militar, e apesar de ter suas críticas ao regime, conseguiu passar pela censura e ser publicado.

Essas críticas chegam por meio da terceira “Menina”, Lia de Melo Schultz, cria de uma baiana com um alemão que abandonou o nazismo. Lião, carinhosamente apelidada pelas amigas, é uma mulher negra, militante da luta armada contra a ditadura brasileira. É a personagem que situa as outras do contexto político-social brasileiro, inclusive porque ela tem um namorado que foi preso pelos militares. Entre as suas atividades, se divide entre os estudos, as reuniões da militância, o apoio a amigos que estão sendo perseguidos. Além do mais, ela é prática e livre, beija quando quer, transa se quiser, um símbolo da liberdade sexual dos anos 70.

O clima político cria uma atmosfera de tensão permanente na história, uma nuvem sobre a cabeça dessas jovens. Mas apesar disso, o regime militar é o contexto, não o centro da narrativa. O assunto principal são os dilemas das meninas: o amor romântico, a sexualidade, o papel da religião, as relações familiares, os planos para um futuro infinito pela frente. Ou seja, a maioria, dramas universais da idade, sendo vividas em meio a pessoas desaparecendo do nada ou fugindo do país para o exílio.

É como se você tivesse a oportunidade de entrar numa máquina do tempo que teletransporta sua mente pra dentro das cabeças dessas meninas. Voltando a um passado recente brasileiro, dentro de um recorte muito específico.

As Meninas, de Lygia Fagundes Telles: uma resenha sincera do clássico brasileiro

Vale a pena ler As Meninas?

Foi uma experiência rica e surpreendente me identificar com os mesmos dilemas e sonhos e desejos daquelas jovens, apesar da distância temporal. Lembrando que quando se fala da Ditadura Militar, não percebemos que muita gente, a maioria das pessoas, estavam tocando suas vidas em meio a esse caos. Então o livro mudou meu pensamento e minha percepção sobre isso. 

A leitura me remeteu a outra obra que mostra uma mulher sobrevivendo num estado de opressão, um dos meus livros favoritos da vid. Estou falando da história em quadrinhos Persépolis, uma autobiografia da iraniana e francesa Marjane Satrapi. A escritora e ilustradora concatena suas próprias memórias, desde criança até a vida adulta, vivendo dilemas universais da adolescência e juventude em meio à violência e às limitações impostas pela Revolução Islâmica. Crítica do regime iraniano, Marjane acabou de nos deixar aos 56 anos, no dia 4 de junho. Uma morte, segundo os familiares, causada pela tristeza pela perda do marido Mattias Ripa, um ano antes.

Lygia Fagundes Telles faleceu em 2022, aos 98 anos

LYGIA VIVEU ATÉ OS 98 ANOS

Mas voltando à pergunta logo acima, digo sim, vale muito a pena ler As Meninas, de Lygia Fagundes Telles. Para mim, foi uma experiência imersiva muito rica, unindo história brasileira com questões femininas, e aspectos psicológicos. Sinto que os dilemas dessas mulheres me fizeram companhia, me permitiram estar próxima de pessoas diferentes das que estão ao meu redor. Fiquei encantada, por exemplo, com o jeito avoado, positivo e também muito generoso da Lorena.

E como leitora me sinto plena por ter me dedicado a ler um clássico da literatura brasileira escrito por uma mulher, uma escritoria icônica como era a Lygia Fagundes Telles.

Resumo

As Meninas é um dos romances mais importantes da literatura brasileira do século XX. Embora sua narrativa em fluxo de consciência exija adaptação nas primeiras páginas, a construção de Lorena, Lia e Ana Clara transforma a leitura numa experiência rica para quem deseja compreender tanto os dilemas da juventude quanto o Brasil da Ditadura Militar.

As Meninas
de Lygia Fagundes Telles
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AUTOR

Márcia Lira

Márcia Lira. Jornalista. Social Media. Especialização em Jornalismo Cultural. Fundadora do Menos1naestante, desde 2010. E-mail: marcialira@gmail.com.

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