
Viaje pra Groenlândia com Migrações, o thriller ecológico de Charlotte McConaghy
Por Márcia Lira em
Quando o presidente Trump começou a reivindicar o domínio da Groenlândia para os Estados Unidos, em pleno janeiro de 2026, eu estava lá na maior ilha do mundo. É como eu me senti lendo o Migrações, da Charlotte McConaghy, cuja resenha trago aqui com as minhas impressões, depois de acompanhar a jornada da Franny, protagonista da história, em busca das andorinhas do ártico. Inclusive, a narrativa do livro acontecer num lugar em que talvez eu nunca coloque os pés, foi uma das primeiras coisas que me atraiu.

Afinal, ler também pode ser viajar. Como é na Groenlândia? Quem vive lá? O que as pessoas de lá pensam, o que comem, o que desejam? Como se vive num território que é 80% coberto de gelo, margeado pelo oceano de águas geladas. Parece tão onírico pra mim vivendo num país continental de altas temperaturas, ainda mais numa cidade que quase não tem inverno, o Recife.

A segunda coisa que chamou a minha atenção foi o projeto gráfico que parece pronto pra começar a desfilar numa passarela, atraindo olhares. É uma edição da Tag Livros, entregue na minha casa quando eu assinava o clube. Um livro misterioso sobre o qual eu nunca tinha ouvido falar, de uma autora que eu não conhecia, com essa capa marítima que dá vontade de sentar num banquinho pra contemplar.
A protagonista em sua busca pelos oceanos me remeteu a Moby Dick, do Herman Melville, uma leitura que alugou um triplex no coração dessa leitora aqui, e lá estava eu convencida de vez a abrir a primeira página. E sorte a minha, pois fiquei cem por cento atravessada pelo livro.
Quantos livros lhe fizeram chorar?
Em toda a minha vida de leitora, menos de dez livros me fizeram chorar, chutando pra cima porque não lembro bem. Um dos que eu terminei aos prantos foi os quadrinhos Cachalote, do Daniel Galera e Rafael Coutinho, que remeteu à minha relação com meu pai. A narrativa encontrou uma frestinha de ferida que eu nem sabia que existia, e botou o dedo dentro.
As leituras de A Morte é um dia que vale a pena viver, da Ana Cláudia Quintana Arantes, e de O Filho de Mil Homens, de Valter Hugo Mãe, também me emocionaram. E agora soma-se a esse time o Migrações, um thriller ecológico, como a autora mesmo denomina.

Um thriller ecológico
A gente acompanha a história de Franny, uma mulher de mais de 30 anos pesquisadora de pássaros num futuro distópico. É um mundo que lamenta a existência dos últimos animais selvagens da terra. Não dá pra dizer que Migrações é uma distopia pois não temos aqui um estado totalitário que centraliza poder e oprime a população, como vemos em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, ou em 1984, de George Orwell.
Mas temos um cenário de catástrofe ambiental com leões, girafas, elefantes, onças, lobos, peixes, baleias contados nos dedos, rumo ao fim. E tensões acirradas entre militantes do meio ambiente e exploradores da natureza.
A Franny faz das andorinhas do ártico, pássaros que fazem a maior migração do planeta, a sua missão de vida. São animais que colocam seus ovos na Groenlândia, mas deixam a ilha no inverno e vão até a Antártida, todos os anos, podendo percorrer mais de 70 mil quilômetros. E o mais curioso é que estima-se que em sua vida, que costuma durar 30 anos, uma andorinha do ártico percorre, em média, “o equivalente a três vezes a distância de ida e volta da Terra à Lua”.

Depois de anos de estudo e observação, nossa personagem aventureira rastreia e acompanha as últimas migrações desses pássaros. Para isso, ela precisa de um barco. Na verdade, precisa convencer o capitão e a tripulação de um barco a aceitarem ela.
O que parece algo fácil para nós criados em terra firme, mas você vai entendendo que no mundo de quem explora oceanos, não é. É mais um peso no barco, uma boca pra alimentar com o estoque limitado que o barco consegue transportar, é mais um lugar pra dormir a ser arranjado e uma vida pra colocar em risco.
Então ela conhece Ennis de um jeito improvável, um homem que mergulha no fiorde – longas e estreitas entradas de mar, caracterizadas por águas profundas e ladeadas por paredões rochosos íngremes (foto abaixo) – e desaparece no mar gélido. Franny se joga na água para salvá-lo e depois descobre que é ele o Ennis, o capitão do barco Saghani, justamente quem ela procurava. E assim começa uma das relações que fazem a profundidade desse livro.

O Moby Dick moderno
Numa negociação difícil, Franny consegue convencer o capitão a levá-la. Inclusive porque se encontrarem as andorinhas do ártico, sabem que vão encontrar os peixes dos quais elas se alimentam, e o Saghani é um barco de pesca. É uma jornada desesperada em busca da última renda pra quem viveu do mar a vida inteira e não sabe fazer outra coisa.
Franny vive uma dicotomia, um dilema. Uma vez que pra encontrar seu objeto de estudo, ela precisa ajudar justo pessoas que condena. São pescadores, predadores dos animais, que contribuíram pra o mundo chegar ao ponto de ver os animais desaparecerem um a um.
É impossível não comparar a impulsividade e a coragem de Franny na busca pelas andorinhas à obsessão do Capitão Ahab pela baleia no livro Moby Dick, do Herman Melville. Mulher vs Homem. A Franny ama os pássaros e quer protegê-los, Ahab dedica ódio à baleia e quer vingança. Será que a personagem da Charlote McConaghy é a heroína e Ahab, o anti-herói?
Ainda assim, há pontos em comum nas personagens, pois Migrações traz uma mulher marcada por uma selvageria dentro de si. Um impulso de se mover, se aventurar, uma mulher que encontra no oceano um pouco de conforto para os traumas que carrega desde a infância. Tanto é que a migração que nomeia o livro é, ao mesmo tempo, das andorinhas e da nossa heroína.
O passado misterioso da Franny
O maior trunfo narrativo desse livro, a meu ver, é a mudança de sentimentos que temos em relação à Franny, à medida em que conhecemos a sua jornada. Passo a passo, a leitura nos revela descobertas e entendemos que, na verdade, a heroína do livro tem outras faces.
Enquanto a jornada em alto-mar acontece, por meio de flashbacks é revelado o resultado da busca da Franny. Ela tenta encontrar sua mãe desaparecida desde que ela tinha 12 anos. Também entendemos sua história de amor com o professor universitário Niall Lynch. Um relacionamento totalmente fora do padrão social, sendo ela uma funcionária da limpeza da faculdade e ele, um pesquisador renomado.

São tantas facetas que cheguei a pensar que ela tinha problemas de saúde mental. Ao final, criamos empatia pela Franny, pelos seus momentos difíceis, muitas vezes irresponsáveis, uma mulher que recusa qualquer tipo de padrão social.
Mas isso só depois de vencer o incômodo de achar a personagem inverossímil. Afinal, seria possível ter uma vida tão desgraçada e ainda agir com tanta força? O que resta da vida quando tanto foi perdido pelo caminho? E vale a pena? Até onde somos capazes de ir por quem amamos? São perguntas que a leitura levanta.
O chão é o mar
Migrações não é uma história que se passa na cidade ou no campo, numa casa ou em um bairro, é uma narrativa do mar e isso deixa o livro muito especial. Lendo nos sentimos no barco Saghani junto com os tipos humanos que ficam confortáveis no balanço das ondas. Enquanto a Franny come um dobrado pra se adaptar, sangrando as mãos pra aprender a fazer nós, enjoando no mar, sendo hostilizada pela tripulação, ela nos ajuda a conhecer a história de cada um. Relatos de chegadas e partidas, de pessoas e pedaços deixados pra trás.
O melhor é que a escrita do livro combina com essa aura. A Charlotte oferece um estilo contemplativo. A leitura flui e tem seus momentos de prosa poética, ao mesmo tempo que usa bem os silêncios. Há poucas palavras nomeando momentos indescritíveis, deixando espaço pra o leitor preencher com as suas impressões, vivências e entendimento. Há intervalos para sentir.
Assim, a obra nos convida a refletir sobre as relações que dão significado à existência. Quais os limites do que somos capazes de fazer por quem amamos? E também nos faz sair da história com mais encanto e respeito pela natureza. Mas também com uma angústia latejando sobre como estamos tratando o meio ambiente enquanto seres inteligentes, ao mesmo tempo protetores e destruidores.

Trilogia de mistério ecológico
A australiana Charlote McConaghy antes escrevia livros de fantasia e Migrações (Migrations) é o primeiro romance adulto, lançado em 2020. Depois veio o Quando havia lobos (Once there were wolves), de 2021. E em 2025, ela lançou o A Costa Selvagem (Wild Dark Shore). Na opinião da autora, em entrevista para o The Leaf Bookshop, canal do Youtube (abaixo), ela diz que os três livros formam uma trilogia temática:
“Embora não estejam relacionados de forma nenhuma pela história ou pelos personagens, eles seguem uma protagonista feminina muito forte e com muitas falhas, que de alguma forma têm interesse em ciência e ecologia. Cada um dos romances, explora a nossa relação com o mundo natural e como ela está mudando com as mudanças climáticas.”
– Charlotte McConaghy
Então agora estou curiosa com os dois livros que vieram depois, se for no ritmo de Migrações, devem ser excelentes. É interessante terminar esse post, pois me deu uma ideia maior do quanto amei esse livro. Como não estão todos falando dele? Espero que o estardalhaço bizarro que o presidente Donald Trump tem feito faça, de alguma forma, esse livro virar assunto também.

Migrações
de Charlotte McConaghy
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Fontes:
https://www.bbc.com/portuguese/ciencia/2010/01/100111_passaro_rc
https://viajarentreviagens.pt/gronelandia/gronelandia-sarfaq-ittuk
https://www.secretatlas.com/expeditions/greenland-cruises
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