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Resenha

Vida desinteressante: um antídoto | Revista Continente

Por Márcia Lira em 18/01/2026

Cada ser humano conectado hoje vive sua própria clausura de nicho. Quem tem um interesse em plantas, é o tempo todo retroalimentado pelas postagens, notificações, cookies nos sites, publicidade sobre folhagens, cultivo, flores. O streaming oferece um filme baseado em outro que você já viu, poderia mostrar algo que eu nunca imaginei?

O que parecia um benefício se tornou uma limitação, é preciso esforço pra sair da bolha. E dentro dessa missão, há certos antídotos como o livro Vida Desinteressante – Fragmentos de memórias (Companhia das Letras, 262 páginas), do Victor Heringer.

Coletânea de crônicas e uma despedida precoce

A obra é uma coletânea de crônicas publicadas na revista Pessoa entre 2014 e 2017, organizadas e apresentadas pelo jornalista Carlos Henrique Schroder. Em cada uma, o escritor segue seus princípios quando diz que “a maioria dos leitores parece estar em busca de respostas e conforto, justamente o contrário do que eu achava que um escritor deveria oferecer”. O resultado é um livro das vivências do Victor, misturadas com um bocado de angústias e inquietações.

Preciso dizer que há uma melancolia inevitável nesta leitura quando sabemos que o Victor Heringer se despediu da vida tão cedo, em março de 2018, com apenas 29 anos. Para quem tem o primeiro contato com o escritor por esta publicação póstuma, como eu, é estranho saber que esses pequenos trechos de genialidade se encontram agora em edição limitada no mundo.

Durante sua juventude interrompida publicou livros que se destacaram na literatura nacional como Automatógrafo (7 Letras, 2011), Glória (7Letras, 2012 e Companhia das Letras, 2018) e O Amor dos Homens Avulsos (Companhia das Letras, 2018). Glória ganhou o Prêmio Jabuti em 2013, no segundo lugar.

Inteligência e ironia pra desentender o mundo hoje

Em Vida Desinteressante, o escritor exercita a livre associação de ideias para nos conduzir pelo seu raciocínio sagaz para processar o mundo. Assim evoca um documentário dos anos 70 sobre um campeonato de leiloeiros de gado para sinalizar como o mito do progresso está nos levando à catástrofe:

“Não há vanguarda, não há líder nem messias em campo nenhum da experiência humana atual. É necessário, ainda outra vez, escutar a bruta e oca poesia dos leilões de gado.” – Victor Heringer

Pouco depois tem uma das saborosas entrevistas realizadas com amigos artistas, como a escritora e poeta portuguesa Matilde Campilho, que conta preferir escrever em cafés, na rua, em jardins porque é na vida acontecendo à sua frente que ela se inspira. E por falar em escrever, você alguma vez pensou em que livro viveria? Inspirado na declaração do Adolfo Bioy Casares, Heringer passeia entre obras do James Joyce ao Drummond, pensando em que história valeria a pena ter um lar. 

Declaração pra o Rio de Janeiro e São Paulo

Aliás, entre os temas abordados pelo escritor nas crônicas, a relação com as cidades em que morou como Rio de Janeiro e São Paulo são uma constante. Quem se interessa pelas ruas cariocas e pelos bairros paulistas vai gostar de conhecer o olhar peculiar do Victor, que ainda aborda as estátuas dos anônimos como os confeiteiros que deveriam ser instaladas, e a pureza dos cães que se adaptaram aos humanos..

Outro tema que aparece em vários textos, não poderia ser diferente, é a literatura, os livros, as palavras. Observações distribuídas ora como observador, ora por insights provenientes de visita a sebos, nas declarações de amor pelo Manuel Bandeira, nas palavras sobre o papel da crítica, como uma ferramenta que frutifica o pensamento e “funda mundos neste mundo”. Uma bela homenagem a uma atividade tão escanteada.

Como um vôo com escalas infinitas, a gente aterrisa na questão da moda: o  mundo vai acabar? “Com mais certeza do que tinham os paranóicos do apocalipse nuclear”. E nesta crônica sobre o fim dos tempos anunciados por catástrofes naturais, políticas, humanitárias, Heringer faz a pergunta que não quer calar: “engano meu ou nós deveríamos dar um pouquinho mais de atenção ao caso?”. 

A pergunta fica aberta para se conectar a uma esperança mais à frente. O sonho de que nasçam homo sapiens “traidores da espécie”, ou seja, insubordinados, rebelados contra as obrigações de destruição do planeta, nossa especialidade. Segundo ele, dizimando todo mundo “no caminho até o iphone”.

Estamos afundando, mas iremos juntos

Como você deve ter concluído até aqui, Vida Desinteressante, é tudo menos um livro que faz jus ao título. Pode ser considerado uma amostra do nosso tempo, um random de temas que nos preocupam ou deveriam preocupar. É impressionante como ler um compilado de observações inteligentes e desesperançosas desta década cada vez mais insana em que tudo parece estar fora de controle tem um efeito, digamos, acalentador. Sabe quando você conversa com um amigo que lhe entende? Estamos afundando, mas iremos juntos. 

Um destaque especial para a “Pequena antologia de comentários em portais de notícias”. Nela, o Victor Heringer eterniza na brochura excertos da “cracolândia da opinião pública” agrupados por temas como economia nacional, homossexualidade, governo, religiosidade. Ao final, a gente sai do livro mais atento, mais crítico, mais sensível até. 

Em uma das crônicas, o Victor se refere à célebre frase do Fernando Pessoa:

Somos todos um cadáver adiado. – Fernando Pessoa

Uma afirmação chocante do escritor português, mas impossível de ser desmentida. Então se estamos todos aqui adiando o inevitável, nos resta deixar uma bela história nestas entrelinhas, ou quem sabe muitas delas? Por esta obra, me dá a entender que o Victor Heringer obteve sucesso com esse legado.  

* Resenha literária publicada originalmente na Revista Continente, de fevereiro de 2022, número 254.

Vida Desinteressante: Fragmentos de memórias
de Victor Heringer
Veja o livro na Amazon: https://amzn.to/4jOyhzN

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AUTOR

Márcia Lira

Márcia Lira. Jornalista. Social Media. Especialização em Jornalismo Cultural. Fundadora do Menos1naestante, desde 2010. E-mail: marcialira@gmail.com.

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