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Resenha

Oração pra Desaparecer é literatura fantástica que celebra nordeste brasileiro

Por Márcia Lira em 23/08/2026

“Quando a gente acha que entendeu tudo, o caos aparece para
relembrar que não somos coisa nenhuma.”

– Socorro Acioli

Não faz sentido. Muita coisa na vida não tem explicação. Não tem lógica, nem ciência que o defina. É por isso eu amo a literatura fantástica. Principalmente a que coloca o insólito no cotidiano de pessoas como eu e você. E o livro Oração pra Desaparecer, da Socorro Acioli, representa o gênero de um jeito único. Sua escrita tem cenário, cheiro, tem cena ampla e cena fechada, a gente sente a textura em sua literatura. Nesta resenha, conto porque ler esse livro vale cada minuto da sua atenção. 

Na primeira frase do livro, a história mostra a que veio. Diferente das narrativas que têm o cuidado de situar o leitor, convidando a entrar no ambiente em que a história vai acontecer com delicadeza, apresentando como estava o clima, os cheiros do ar, a rotina do lugar, em Oração pra Desaparecer, o leitor começa enterrado junto com a personagem principal:

“Acordei com os olhos grudados de lama. O nariz entupido de terra e a boca
cheia de areia estralando nos dentes. Alguém me enterrou.”

– Socorro Acioli

A história começa na cova, debaixo da terra

Esta mulher é desenterrada viva por uma família que estava à sua espera, pois tinham recebido um aviso com a missão de resgatá-la, no povoado de Almofala, em Portugal. Ela tem um ferimento sério no ombro, como se tivesse levado um golpe de faca ou algo parecido.

Ao longo das primeiras páginas, descobrimos que ela é a última Ressurecta, um tipo de gente  que consegue viajar pelo tempo e espaço, sumindo da sua vida original e reaparecendo em outro momento e lugar.

“Ressurrecto? Eu sou isso? 
– É como meu pai chamava. Pessoas que iam morrer, mas por um triz
escaparam e voltaram à vida em outro lugar. 
– E qual o sentido disso? 
– A menina ainda não percebeu que quase nada na vida faz sentido?”

– Socorro Acioli

Ela não tem nenhuma memória da vida anterior. O nome, o que fazia, onde nasceu, com quem morava, mãe ou pai, ela falava que língua? Quando dorme e sonha, a ressurecta tem insights da vida passada, por meio de cenas de um amor, momentos com uma figura materna. Nós, leitoras, vamos tentando junto abrir o novelo da sua história, ao mesmo tempo em que a personagem tenta se apropriar da nova vida.

Lá pela página 30, é que a mulher ganha o nome de Cida, batizada por seus salvadores. O interessante é que Cida é a única realmente espantada pelo que lhe aconteceu. Como pode uma pessoa viajar por baixo da terra? Ser enterrada e aparecer viva em outro lugar? E quem a feriu? Por que ela quase morreu? As perguntas da personagem são também as nossas dúvidas, enquanto todos ao redor parecem conviver bem com essa perspectiva estranha, algo comum na Literatura Fantástica.

Socorro Acioli sabe contar uma boa história

Então diante de todo esse cenário estranho, quando piscamos, estamos totalmente envolvidos e sendo conduzidos pela escrita fluida de Socorro Acioli. À medida em que o tempo passa, muita coisa acontece. Amor, memória, família. Página a página, conhecemos a mulher misteriosa ao mesmo tempo em que ela vai se apropriando de si, seja lembrando quem é, seja pelo olhar das novas pessoas. Sua dupla jornada angustiante e dolorosa, para o passado e para o futuro, geram curiosidade e nos prendem na história. 

A atmosfera do livro me lembrou um pouco do maravilhoso e imperdível A Casa dos Espíritos, da Isabel Allende, fica fácil associar a clarividente Clara na confusa Cida. Embora o fantástico de Socorro Acioli é um pouco mais pesado, a meu ver, ali como quem tivesse caminhando para o terror, mas ainda a milhares de quilômetros de distância. 

Ao nos colocar ao lado de uma mulher adulta com a vida zerada, a escritora nos faz pensar sobre o papel de coisas que nos identificam sem nem nos darmos conta. O lugar onde nascemos, onde passamos a nossa infância, o tipo de comunidade em que vivemos, a atividade que exercemos, as pessoas que passaram pelas nossas vidas são todas elementos também de identidade, que ajudam a dizer quem somos. Quando tudo fica esquecido, o que nos resta?

Também é interessante pensar as relações humanas como lugares de pertencimento. Cida sabe que tinha um amor, um homem que a amava. Uma mulher que era uma figura materna. Mas sem identificar mais esses pontos de contato, ela fica sem referência.

“Os sonhos guardam o que é nosso e nós devolvem quando precisamos, ele disse, contando que pelos caminhos de dentro as memórias voltaram da viagem escura.”

– Socorro Acioli

Livro valoriza o Nordeste e suas histórias


Um outro aspecto especial é ver o Brasil em um livro com um jeitão tão universal. A certa altura, descobrimos que a personagem também se conecta com a praia de Almofala, no município de Itarema, no Ceará, estado que deu à luz a escritora. Ao vermos a página do lugar na Wikipédia, a referência feita pela obra Oração pra Desaparecer já está registrada.

Curioso demais constatar que a maior parte dos elementos da história fantástica de Socorro Acioli estão lá: a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, que é uma das protagonistas da história, tem mais de 300 anos e por volta de 1897 acabou sendo soterrada por dunas móveis. A aldeia do povo indígena tremembés, que tem por lá uma das suas maiores bases, a própria existência da personagem faz referência nominal a uma mulher conhecida na história da praia.

Pra quem já leu o livro, vale demais ler essa matéria: Igreja no interior do Ceará foi soterrada por dunas há 125 anos e ressurgiu quase meio século depois

Viciada em ver vídeos com a Socorro Acioli

É o primeiro livro que leio da escritora cearense que está no hype, conquistando e até trazendo de volta aos livros muita gente.  Ela é jornalista, mestre em Literatura Brasileira na UFCE e Doutoranda em Literatura Comparada pela Universidade Federal FLuminense, em Niterói. Socorro tem 17 livros publicados, sendo esse o mais famoso junto com A Cabeça do Santo. 

Socorro Acioli, por Igor Melo

Além da sua obra literária, a escritora é o carisma em pessoa. Desde julho, na Flip 2026, o algoritmo passou a mostrar vídeos dela falando pra mim, recortes de entrevistas ou de mesas de debates. E, nossa!, como é gostoso ouvir essa mulher falar. Ela é uma contadora de histórias e causos maravilhosa, apropriada da sua inteligência e conquistas, mas sem ser pedante. Pra completar, tem uma história de vida intensa, cheia de traumas, que ela faz questão de que não a definam.

Por exemplo, eu estava com vontade de ler o primeiro livro dela, A Cabeça do Santo, mas depois desse vídeo, ele entrou totalmente pra minha lista de próximas leituras:

Essa matéria também dá um bom panorama sobre a escritora: Cirurgia bariátrica, apê no Copan e casamento em cenário de best-seller: as mudanças de Socorro Acioli

Recomendo 100%, mas não amei o final

Esse livro me tirou dos pensamentos da rotina. Me fez pensar em viajar pra conhecer a tal Almofala em Portugal, que depois se conecta à cidade de Almofala, no Ceará. Foi um livro que me fez companhia, me tirou do massacre da rotina. Da lista de tarefas. E foi fácil me envolver com ele.

A história tem ritmo e a escrita da escritora flui como o ir e ver do vento. A única coisa que não gostei foi o final, porque é como se a história viesse bem dosada no fantástico, no místico, tipo dose cinco. E no desfecho, a narrativa pisa forte na religiosidade e no etéreo e o final acaba ficando mais “viajado” do que precisava.

Ainda assim, estou feliz de ter feito essa leitura, o saldo é muito positivo. É uma história tão estranha e ao mesmo tempo, palpável, que acredito que sempre vou voltar a ela com os olhos brilhando de encantamento. Certamente está entre as melhores do ano. Recomendo bastante.  

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3 comentários

AUTOR

Márcia Lira

Márcia Lira. Jornalista. Social Media. Especialização em Jornalismo Cultural. Fundadora do Menos1naestante, desde 2010. E-mail: marcialira@gmail.com.

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