Posts com a tag "trecho"

Romã fendida

Publicado por em 8/06/2010 | Deixe um comentário

“Glorinha estava na mesa, quieta, os olhos fechados. Ele teve vontade de avançar a cabeça por entre as pernas. O sexo de um rosa vivo de romã fendida. Ali, o cabelo era de um louro, de um louro, não, de um ruivo, sim, ruivo. Por um momento, sonhou com uma posse, não uma posse consentida, mas violenta, cruel. Arrastando-a, nua, pelos cabelos. O seu desejo foi tão brutal que pensou no filho, o filho no necrotério, a cabeça enrolada e um olho aberto, parado de espanto.”

E é porque “ele” é apenas um ginecologista. Delícias de Nelson Rodrigues, em O Casamento.

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O que a internet está fazendo com os nossos cérebros?

Publicado por em 8/06/2010 | Deixe um comentário

Laerte
via oesquema.com.br

“A quantidade de textos, fotos, vídeos, músicas e links para outras páginas combinada com incessantes interrupções na forma de mensagens de texto, e-mails, atualizações do Facebook, tweets, posts em blogs e feeds de RSS fez com que nossas mentes se acostumassem a catalogar, arquivar e pesquisar informações. Desta forma, desenvolvemos habilidades para tomar decisões rapidamente, especialmente visuais.

Por outro lado, cada vez lemos menos livros, ensaios e textos longos – que nos ajudariam a ter foco, concentração, introspecção e contemplação. Ele diz que estamos nos tornando mais bibliotecários – aptos a encontrar informações de forma rápida e escolher as melhores partes – do que acadêmicos que podem analisar e interpretar dados.”

Só um gostinho de uma boa resenha do Link sobre o novo livro do norte-americano Nicholas Carr: The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains. A resenha me lembrou a tirinha do Laerte, que vi no Trabalho Sujo. Sinto que preciso ler o Carr, ele tem tratado de coisas que me angustiam. E a você?

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Um pouco de Kundera (ou Pensar cansa!)

Publicado por em 2/06/2010 | Deixe um comentário

Tem horas em que a gente se compromete tanto com um projeto, um trabalho, que em algum momento aquilo suspende todo o resto da sua vida. É um desgaste, que acaba valendo a pena (ou deveria valer). E como deixa a cabeça desorientada!  Acabei de sair de uma fase assim – como podem notar pela data da última postagem -, e quando estava nela lembrei muito de um personagem de A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera.

É o renomado médico Tomas, um dos principais na história que acontece em Praga, cirurgião conceituado entre os “homens de ciência”. Em um determinado momento, ele abandona a profissão por causa de uma perseguição política e se torna um lavador de janelas. Apesar da perda forçada de prestígio, ele se deixa fascinar pelo conforto que é trabalhar sem ter que se conectar profundamente ao serviço:

Window washer - David Wise

“Mas uma vez habituado (o que demorou mais ou menos uma semana) à espantosa estranheza da sua nova vida, percebeu de repente que estava a começar umas longas férias.

Fazia coisas a que não ligava importância nenhuma, e isso era bom. Compreendia finalmente a felicidade daqueles (que, até agora, nunca lhe tinham inspirado senão piedade) que exercem uma profissão que não escolheram auxiliados por um es muss sein! interior e da qual se esquecem mal largam o local de trabalho. Nunca sentira essa bem-aventurada indiferença. Dantes, quando uma operação não tinha corrido bem, tinha uma crise de desespero e não conseguia dormir. Chegava mesmo a perder o gosto pelas mulheres. O es muss sein! da sua profissão era como um vampiro que lhe sugava o sangue.

Agora, percorria as ruas de Praga com a sua grande vara de lavar montras e constatava com surpresa que se sentia dez anos mais novo.”

Clique de David Wise

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Indivíduo do sexo feminino

Publicado por em 4/05/2010 | Deixe um comentário

“Por um segundo imaginei
que ela não fosse uma mulher para se tocar aqui ou ali,
mas que me desafiasse a tocar de uma só vez a pele inteira.”

Budapeste, Chico Buarque

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“Porque idênticas no andar,
não há duas mulheres no mundo,
nem as manequins, as gueixas,
nem mesmo irmãs gêmeas.”

Budapeste, Chico Buarque

“Vi então que as mulheres têm dentro delas
uma coisa que as faz entender
o que não é dito”.

A Força Humana, conto de Rubem Fonseca

Foto de Cristina Ivan

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O que as palavras iniciais de um livro dizem sobre ele

Publicado por em 30/04/2010 | 7 comentários

Uma das valiosas coisas que aprendi com o escritor Raimundo Carrero é o que a primeira frase de um livro informa sobre a obra inteira. Carrero diz que dá para avaliar se um livro é bom ou não, numa olhada rápida, simplesmente pela primeira frase – no máximo, o primeiro parágrafo. Aos aprendizes do ofício, ele chama atenção para a primeira sentença de um romance. Deve ser matadora. Agarrar o leitor, causar curiosidade.

Claro que é uma teoria  reducionista e Carrero a profere com toda a consciência, mas não deixa de ser um artifício para sentir uma obra. Tática muito válida levando em conta que ler leva tempo, artigo tão precioso e aparentemente escasso. Mas o pior é que eu nunca achei uma publicação que desmentisse essa teoria. Vamos a alguns exemplos de primeiros trechos:

“Ernst Spengler estava sozinho no seu sótão, já com a janela aberta, preparado para se atirar quando, subitamente, o telefone tocou.”

Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares. Matador, héin? E que o livro é bom eu já falei exaustivamente aqui.

“Em setembro de 1974, ao anoitecer, um pequeno avião bimotor, prateado e preto, aterrisou numa pista auxiliar do Aeroporto de Cogonhas, em São Paulo. Diminuindo a velocidade, fez uma curva e deslizou em direção a um hangar, onde uma limusine estava à espera.”

É o começo de outra obra sobre a qual eu comentei aqui, Os Meninos do Brasil, de Ira Levin, é assim: Capturou você? A mim, não, como escrevi. Só gostei do livro do ponto de vista histórico.

“- – – – – – estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender.”

Pegando uma unanimidade como Clarice Lispector. Em A Paixão Segundo GH, a primeira frase é essa (com traços e tudo). Precisa nem dizer, né? E o livro eu amei.

“O eterno retorno é uma idéia misteriosa, e Nietzche, com essa idéia, colocou muitos filósofos em dificuldade: pensar que um dia tudo vai se repetir tão como foi vivido e que essa repetição ainda vai se repetir indefinidamente! O que significa esse mito insensato?”

É o comecinho com que Milan Kundera me sequelou em A Insustentável Leveza do Ser, que é daqueles que muita gente não leu, mas todo mundo já sabe que é bom.

Você concorda ou discorda com essa teoria? Qual é a primeira frase do livro que você está lendo? Conta nos comentários.

Foto de Vitor Sá.

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Ideias demais, coisas demais, pessoas demais

Publicado por em 27/04/2010 | Deixe um comentário

“Existem ideias,
coisas
e pessoas
demais.
Caminhos demais a seguir.
Comecei a achar que é importante
gostar de algo
com paixão,
pois isso reduz o mundo a um tamanho
administrável.

Adaptation

Mais identificação, impossível. Trecho do livro ou roteiro de algum dos personagens – não estou lembrada, alguém? – desse que é um dos meus filmes favoritos. And we love Nicolas Cage.

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O horror do mundo cresce ou diminui?

Publicado por em 14/04/2010 | Deixe um comentário

Queria que do meu estudo resultasse um gráfico – um único gráfico que resumisse, que permitisse estabelecer uma relação entre o horror e o tempo. Perceber se o horror está a diminuir ao longo dos séculos ou a aumentar. Se é estável. Repara que se descobrir que o horror tem uma certa estabilidade histórica, que mantém certos valores, digamos, de cinco em cinco séculos, se conseguir encontrar uma regularidade, estarei perante uma descoberta fundamental (…).

Ameba - Foto de Max Boschini

“Pretendo chegar à fórmula que resuma as causas da maldade que existe sem o medo, essa maldade terrível; quase não humana porque não justificada. (…) E tal como se vê nas folhas quadriculadas de um eletrocardiograma a saúde ou a doença de um homem, eu verei no gráfico, resultado dos meus estudos, a saúde e  doença, não de um único homem, não de um único indivíduo, mas dos homens no seu conjunto; do colectivo, da totalidade do mais relevante e objecto comportamento humano.”

Na digestão de Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares, o trecho representa o que foi uma das coisas mais intrigantes da obra para mim: acompanhar os estudos de Thomas Busbeck, um psiquiatra que decidiu se debruçar sobre a História da humanidade para responder a essa pergunta que, diante de tanta violência, todo mundo se faz.

O personagem chega a uma conclusão, inclusive traça uma tabela onde aponta nações que sofrerão massacres no futuro ou o realizarão, causando grande polêmica e… não farei mais spoiler literário :) Para mim, essa é uma daquelas grandes perguntas cuja verdadeira resposta dificilmente virá à tona um dia.

Foto de Max Boschini

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