Posts com a tag "trecho de livro"

[Trecho de livro] Sobre banho de mar – Inés Bortagaray

Publicado por em 20/01/2017 | Deixe um comentário

Banho de mar - Trecho de livro

 

Quando vamos à praia no verão gosto de tomar o primeiro banho de mar e o último banho de mar com muito cuidado e atenção. Amanhã, se não chover, e também se chover, vamos todos à praia, e então vou me aproximar da beira e entrar devagarinho. Sei que o frio da água vai doer, mas não importa. Adoro entrar na água do mar pela primeira vez depois de muito tempo. Faz um ano desde a outra vez, e daquela vez fazia um ano desde a vez anterior. Entro na água e caminho como se não estivesse pisando fundo. Às vezes vejo os dedos dos meus pés, mas isso não acontece sempre. Avanço na água e a pele dos meus braços fica arrepiada com o frio. Depois só preciso dar impulso e mergulhar com tudo, soltar bolhas pelo nariz e abrir os olhos debaixo d’água, olhando para o céu. Olho para o céu por debaixo d’água e então fico curada de tudo. É o máximo da saúde olhar para cima debaixo d’água.

Trecho do lindinho Um, Dois e Já, sobre uma família em viagem de carro, da uruguaia Inés Bortagaray. Recomendo demais a leitura.

Tags deste post: , , ,

Tatuagens com vida própria, por Ray Bradbury

Publicado por em 2/09/2016 | Deixe um comentário

O homem ilustrado

Parte da capa do livro The Illustrated Man, de Ray Bradbury

 

Eu lhe darei desenhos especiais que o senhor jamais esquecerá. Desenhos do Futuro em sua pele.’ Ela o espetou com a agulha. (…)
Ele voltou correndo ao parque de diversões naquela noite, inebriado de terror e júbilo. Ah, como a velha bruxa da poeira tinha o enchido de desenho e cor. Ao final de uma longa tarde sendo picado por uma cobra prateada, seu corpo ganhou vida com os desenhos. Parecia que ele havia caído e sido esmagado entre os rolos de aço de uma prensa gráfica e saído como uma incrível rotogravura. Vestia uma roupa com gigantes e dinossauros escarlates”.

Trecho de O Homem Ilustrado, de Ray Bradbury. Conto da coletânea A Cidade Inteira Dorme.



>> Leia a resenha sobre essa coletânea aqui no blog.

Tags deste post: , , , ,

Insights sobre o calor por Ray Bradbury

Publicado por em 25/01/2016 | Deixe um comentário

Pôr do sol

Se você mora no Brasil, é provável que vá entender bem o que eu tô falando. Porque aqui no Recife todo dia a gente tá levando uma surra de calor. O clima abafado, a gente suando, e as folhas das árvores que não balançam.

Por isso que quando li esse trecho do conto O Homem em Chamas, do Ray Bradbury, me remeteu ao sentimento que dá nesse clima. A gente não fica normal não andando debaixo desse sol.

Num dia como hoje, o inferno todo está solto dentro de sua cabeça. Lúcifer nasceu em um dia assim, em uma desolação como esta’, disse o homem. ‘Com apenas fogo e chamas e fumaça por toda parte’, disse o homem. ‘E tudo tão quente que você não conseguia tocar, e as pessoas não querendo ser tocadas’, disse o homem.

(…) Ouçam. E se o calor intenso, quero dizer, o calor realmente quente, quente de um mês como este, em uma semana como esta, em um dia como hoje, simplesmente produzisse um Homem Mau, feito de lama do rio assada. Que estava ali, enterrado na lama por quarenta e sete anos, como uma maldita larva, esperando vir à luz. E ele despertasse com uma sacudida e olhasse em volta, totalmente adulto, e saísse da lama quente para o mundo e dissesse: ‘Acho que vou comer um verão’.”

Queixas à parte, A Cidade Inteira Dorme, coletânea de histórias do autor de Fahrenheit 451 foi a minha primeira leitura finalizada de 2016. E-QUE-HIS-TÓ-RIAS! Em breve, venho contar mais.

Mais sobre Bradbury no blog:

Bradbury e o que não pode acontecer, por Diogo Monteiro
Em 1953, Fahrenheit 451 criticava a redução dos clássicos

Tags deste post: , , ,

Em 1953, Fahrenheit 451 criticava a redução dos clássicos

Publicado por em 7/10/2014 | 2 comentários

Fahrenheit 451 by act of acadia

Clássicos reduzidos para se adaptarem a programas de rádio de 15 minutos, depois reduzidos novamente para uma coluna de livro de dois minutos de leitura, e, por fim, encerrando-se num dicionário, num verbete de dez a doze linhas. Estou exagerando, é claro. Os dicionários serviam apenas de referência. Mas, para muitos, o Hamlet, certamente você conhece o título, Montag; provavelmente a senhora ouviu apenas uma vaga menção ao título, senhora Montag, o Hamlet não passava de um resumo de uma página num livro que proclamava: Agora você pode ler finalmente todos os clássicos; faça como seus vizinhos. Está vendo? Do berço até a faculdade e de volta para o berço; este foi o padrão intelectual nos últimos cinco séculos ou mais.”

A atualidade das distopias escritas no meio ou até no começo do século é sempre surpreendente, por mais que seja batida. É incrível que, já em 1953, ano de publicação de Fahrenheit 451, Ray Bradbury estivesse incomodado com a desvalorização das grandes obras da literatura, de forma a colocar isso na boca de um personagem. O trecho me fez lembrar dos milhares de resumos dos clássicos que você encontra na internet, muletas certas para alunos “obrigados” a ler Machado de Assis, José de Alencar, Guimarães Rosa, etc. E ainda da adaptação dessas e outras grandes obras para os quadrinhos. Não que eu seja contra, adoro quadrinhos – inclusive minhas estreias como leitora foram com A Turma da Mônica. Mas é importante que resumos e adaptações facilitadas sirvam de iscas para as obras originais, precisam vir acompanhadas com a mensagem da importância de ler os clássicos.

O livro é a minha leitura atual, com aquele quê de como é que eu não li esse livro antes? (bem que uma amiga disse). Tô achando a história fantástica, e depois venho contar mais pra vocês.

Imagem de Act of Acadia, daqui.

Tags deste post: , , , ,