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Resenha O Grande Gatsby

Publicado por em 12/02/2014 | 16 comentários

Tipografia - Gatsby

Expectativa é uma coisa problemática, principalmente se for alta. Isso serve pra tudo na vida, mas vou me limitar aos livros. Você pode ser o tipo de leitor que devora todo livro que lhe cai à mão. Ou você pode ser como eu, que não consegue ter essa disponibilidade toda e escolhe bem antes de entrar numa leitura. O ruim disso é que geralmente eu não espero pouco do livro, ainda mais quando é um clássico como O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald.

Desde que me entendo de gente, ouço falar do livro, e aos poucos fui nutrindo essa vontade de conhecer Gatsby. Essa história que teria todo o glamour dos anos 20, as roupas, as festas, os romances. Quando assisti ao filme Meia-Noite em Paris, onde Fitzgerald é bem representado, decidi que tiraria o livro da estante o quanto antes.

O verão de 1922 na cidade de Long Island, em Nova Iorque, é o cenário onde Nick Carraway chega e tudo acontece. Ele é o vizinho de Jay Gatsby e sua mansão de belo jardim, famoso pelas festas extravagantes que reúnem as melhores comidas e bebidas, a fim de divertir pessoas de todas as regiões, que chegam sem nunca terem sido convidadas, ou conhecer o anfitrião.

A história se desenrola nesse clima e em torno de quem, na verdade, é Gatsby. Lendas urbanas não faltam sobre ele e ao longo das páginas, a gente vai descobrindo o que é verdade. Como disse uma amiga, o livro é menor que as altas expectativas. Esperava muito mais do clássico. Não é surpreendente na história, não é surpreendente na forma de contá-la. Mas acho que vale a pena lê-lo despretensiosamente, que é o que eu queria ter feito.

Depois de acabar, é claro que eu fui ver o filme com Leonardo di Caprio e Carrey Mulligan, e adorei. Não, não quer dizer que o filme é ótimo, mas quer dizer que o filme é bem fiel às cenas que o livro descrevem, o que é sempre o êxtase para qualquer leitor. Fora o tom modernoso das músicas e tudo mais, claro. Agora ficou difícil pra mim dizer se a experiência é assim tão boa pra quem nunca teve nenhum contato com os causos de Gatsby.

Quero muito saber o que vocês acharam dos dois.

http://instagram.com/p/dvPddxE9bv/

Nem as maiores lufadas de fogo e vento seriam capazes de competir com aquilo que um homem pode guardar em seu coração etéreo.

Ah, e atenção para a importância de ler livros com boas traduções. Quando postei no Instagram essa foto de um trecho de O Grande Gatsby, edição da Penguin, Catarina se deu conta como era pior a tradução do mesmo livro que ela estava lendo, edição da LP&M. Pra você ter ideia, o mesmo trecho grifado acima virou:

Não há intensidade de ardor ou de euforia que possa desafiar aquilo que um ser humano é capaz de armazenar em seu fantasmagórico coração.”

Diferença do mal, héin?

Fotos são daqui. A última é minha.

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O Hobbit abriu o paladar para Tolkien

Publicado por em 29/01/2013 | 12 comentários

O Hobbit

Ler O Hobbit, de J.R.R. Tolkien, só me deu mais vontade de entrar mais no mundo criado pelo escritor britânico. Principalmente porque a impressão que eu tive é a de que eu estava diante de uma obra mais simples de Tolkien. Na verdade, a impressão que eu comprovei. Porque um amigo muito inteligente literariamente falando tinha me alertado: “Lembre que O Hobbit foi escrito para o filho dele”.

Ok, diante da alta expectativa que tenho de Tolkien, isso evitou uma frustração. Não entenda que o livro é ruim, muito pelo contrário. É um bom livro, com uma grande história. É só porque eu esperava que Tolkien exigisse mais do leitor, o que não acontece – e há de ser proposital. Outra coisa importante de saber é que O Hobbit é o primeiro livro de ficção dele, lançado em 1937. É onde começou o desenvolvimento de toda a Terra Média e suas criaturas fascinantes.

É uma história sobre sair da zona de conforto, e se jogar no desconhecido e perigoso em busca de frio na barriga, e ainda colaborando para uma causa nobre. Uma grande história sobre isso. E também sobre voltar pra casa e se perceber alguém completamente diferente. O hobbit Bilbo Bolseiro é convocado pelo mago Gandalf para acompanhar os anões desempenhando o papel de ladrão na perigosa aventura para reaver a Montanha Solitária. O lugar que outrora era do povo deles, com todo o ouro que eles passaram muito tempo juntando, tudo roubado pelo dragão Smaug.

Nós somos gente simples e acomodada, e eu não gosto de aventuras. São desagradáveis e desconfortáveis! Fazem com que você se atrase para o jantar! Não consigo imaginar o que as pessoas vêem nelas.

Palavras de Bilbo, pouco antes de embarcar na aventura.

Depois de ver os três O Senhor dos Anéis e o primeiro O Hobbit no cinema, ler o livro trouxe uma sensação bem interessante. Ao mesmo tempo em que havia a familiaridade com os personagens, todos ficaram mais próximos e eu comecei a entender melhor as motivações de cada um e o funcionamento da Terra Média.

O Hobbit, o filme

É um mundo fascinante esse em que as pessoas respeitam o que é dito de boca, ajudam oferecendo cama e banquetes a desconhecidos quando apóiam a causa deles, onde os grandes acontecimentos se transformam em canções entoadas de geração em geração. O fato é que me despertou uma vontade grande de ler todos O Senhor dos Anéis, e ainda ver todos os filmes de novo. A única coisa muito estranha é que não há mulheres na história, todos os personagens são masculinos. Tudo bem que na década de 30, as mulheres ainda estavam longe de ter o papel que têm hoje na sociedade, mas ainda assim é esquisito.

Comparando o filme O Hobbit, recém-lançado com o livro, posso dizer que há muitos detalhes diferentes. Sabe quando uma história é contada a fulano, que conta a cicrano, que conta a você? É como se ao recontar a história, os roteiristas preenchessem as lacunas que eles não lembravam do jeito que eles quisessem.

Mas no sentido geral, a transposição para o cinema me parece bem justa, passa o clima do livro. Pelo menos desse primeiro filme, que é apenas um terço da história. Fico particularmente feliz com o ator escolhido para interpretar Bilbo Bolseiro – já gostava muito do Martin Freeman na série britânica Sherlock, onde ele interpreta Watson. Vamos ver se tudo continua assim.

E para finalizar esse post com chave de ouro, uma galeria com capas antigas do livro, diretamente garimpadas daqui.

>> O Hobbit, o filme depois do livro

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Para se abraçar com Inverdades

Publicado por em 26/06/2012 | Deixe um comentário

Inverdades no iPad

Quando eu vi, tinha topado fazer a revisão. Fazia tempo que a gente conversava sobre escrever, ele falava sobre o novo projeto, eu tinha curiosidade. Tinha acabado de ler o primeiro título de Alex Luna, Elas e Outras Histórias, e achado legal. Um jeito muito peculiar de contar o amor e suas mulheres, as agruras e as delícias dos relacionamentos, todo tipo de referências. Mas eu sabia que tinha muito mais coelho pra sair desse mato. Então eu comecei a revisão do livro que quase se chamava Mentirinhas.

Bom, eu nunca revisei um livro. Tirei da minha gaveta a experiência de editar matérias do tempo de jornal e o que tinha aprendido sobre o que é e como se faz uma boa literatura. Com isso, tentei fazer algo útil. Quando mandei as primeiras revisões e Alex adorou, eu me empolguei pra ir em frente e me senti à vontade para dar ideias. Tarrask, como é mais conhecido, diz que fez muita diferença. Eu só acho que ajudei a dar um polimento no que já era bem bom.

Saiu o Inverdades: pequenas manifestações divinas em folhas de chá, marcas de sangue e manchas de batom. Um aposto auto-explicativo, uma edição digital com capa e ilustrações lindas da Cristina Santos. Faz um tempo que o e-book foi lançado, nem eu entendo como demorei tanto a contar por aqui. Acho que é a dificuldade de falar quando o envolvimento é grande (acabei de lembrar que nunca esmiucei a minha monografia sobre literatura fantástica por aqui).

Trecho de Eurídice

São 16 contos com temáticas diferentes, abertos por um prólogo genial, costurados pela escrita de Alex e pelas referências a músicas e à mitologia grega. Pouco pude aproveitar desta última, por conta dos meus conhecimentos limitados. Mas achei interessante me debruçar sobre os trechos de canções, muitas que marcaram infância e adolescência, por causa dos significados diferentes que ganham ao final do conto.

Os textos são quase sempre interessantes, mas há momentos especiais pra mim. A obssessão de Abraão repudia Agar, o desfecho nelson rodrigueano de São Jerônimo Penitente,  as atitudes redentoras de A história de Jonas, só para citar alguns. Fica difícil dizer o quanto a literatura de Alex amadureceu, só consigo pensar que o Inverdades dá à luz um escritor. Conheçam e me digam depois se concordam.

O Inverdades está disponível na Amazon por U$S 2,99.

PROMOÇÃO

Vejam que legal, Alex cedeu três cópias para eu sortear entre os leitores do Menos um na estante. Para participar, siga @menos1naestante no Twitter, e depois tuíte a seguinte frase (com o link).

 

Quero ler o novo Inverdades, do @tarrask, vou ganhar o e-book do @menos1naestante —> http://kingo.to/17WA

 

O prazo era hoje, quinta-feira, mas o Sorteie.me entrou em manutenção e prometeu voltar às 17h. Então as participações serão até sexta-feira, meio-dia, quando vai ocorrer o sorteio. Participem!

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Para se deixar seduzir pela menina má

Publicado por em 21/01/2012 | 2 comentários

 

Capa do livro "Travessuras da menina má", de Mario Vargas Llosa

O mérito de estar no título da obra de Mario Vargas Llosa não é à toa. A menina má é fascinante. Quando a gente termina a última página do livro, percebe que desenvolveu por ela um sentimento tão doentio quanto o que nutre Ricardito, o peruano narrador da história. Uma mistura de “Ufa, me livrei!” com “E agora, o que é que eu faço?”.

Em Travessuras da menina má (Alfaguara, R$ 47,90), o trunfo na manga de Vargas Llosa é a super construção do personagem. Digo isso porque é difícil pensar alguma situação, algum problema que não tenha acontecido ao longo da vida dessa moça. E ainda assim ela não se torna inverossímil, é até possível imaginar que existe por aí mulher tão intensa, sequelada e sedutora.

“Falava sem deixar de sorrir, movendo a boca com uma brejeirice mais refinada que antes. Contemplando seus lábios marcados e sensuais, arrulhado pela música de sua voz, tive um desejo enorme de beijá-la. Senti um aperto no coração.”

O livro conta a vida de Ricardito, um peruano cuja grande ambição era morar em Paris. O problema é que na adolescência, ele se apaixona por uma chilenita caliente, de ombros soltos e olhos dissimulados sedutores. A verdade não é a especialidade da garota, que desaparece da vida dele. Afinal, as ambições dela são muito maiores, um empecilho para uma história de amor como a gente vê nos filmes.

“E, com sua personalidade gélida, não hesitava em me procurar, convencida de que não havia dor, humilhação, que ela, com seu poder infinito sobre os meus sentimentos, não fosse capaz de apagar em dois minutos de conversa.”

Em vários momentos, em situações diversas, em lugares inusitados, eles se separam e se reencontram, vivendo tórridos dias ou horas de romance. Ou só de sexo, sempre diferente, do tipo gato-e-rato, do tipo rindo, e em meio às mais exdrúxulas situações. Ele, sempre um apaixonado imbecil e obssessivo, a menina má sempre misteriosa e distante. E apesar das situações psicológicas complexas, o livro poderia até ser monotemático, mas está muito longe disso.

Há a política, com as descrições dos bastidores das revoluções do Peru e os movimentos de esquerda da França. Há as amizades intrigantes de Ricardito e há o turismo literário, onde o guia é Vargas Llosa apresentando peculiaridades e recantos de cidades da Europa, como Paris e Londres, sem falar em Tóquio. De forma que a sensação é a de acompanhar uma espécie de saga das relações humanas e da vida política na época.

Café Les Deux Magots, em Paris

Particularmente, tudo de Paris me saltou aos olhos, pois quando comecei a ler a obra, estava de viagem marcada para lá. E na volta, foi especial reconhecer ali alguns lugares que pude visitar ou apenas ver. Como o Café Les Deux Magots, super tradicional, famoso porque era frequentando por Hemingway, é onde acontecem alguns encontros entre a menina má e Ricardito.

Fotos de MuddyRavine.

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A mulher de vermelho e branco é “number one”

Publicado por em 17/10/2011 | Deixe um comentário

Capa do livro "A mulher de vermelho e branco", de Contardo Calligaris

“Number One” é uma gíria usada por uma das personagens-chave do livro de Contardo Calligaris, LeeLee. É uma escala onde um é uma maravilha e dez é péssimo. Colocaria A mulher de vermelho e branco (Companhia das Letras, R$ 39) no topo desse ranking (Ok, number three). O livro é do tipo que prende a atenção, porém de uma forma madura. Nada de tirar o fôlego ou de não conseguir parar de ler para dormir. É elegante. Por exemplo, você está trabalhando e se pega pensando na situação dos personagens.

Engraçado é que o apego não é ao protagonista da trama, o psicanalista Carlo Antonioni. Brasileiro, radicado em Nova York, é pelo ponto de vista dele que acompanhamos duas histórias intrigantes de mulheres bem diferentes. A primeira, a paciente Woody Luz, uma americana quase brasileira, mãe de dois filhos, com sérias dificuldades de relacionamento com o marido marroquino Khaloufi, sendo o choque-cultural um dos principais pontos.

E tem LeeLee, ex-namorada dele. Personagem tão especial que, se fosse no cinema, a atriz que a incorporasse seria uma das favoritas ao oscar de coadjuvante. Uma mulher vietnamita que passou por maus bocados ao fugir da guerra do Vietnã para encontrar refúgio em Paris. Décadas depois, LeeLee ainda tem uma obssessão por se livrar dos fantasmas do passado e é com a ajuda de Carlo que isso vai acontecer.

“Eu ficava com a impressão de que a jovem descolada, de uma hora para outra, denunciaria aquela senhora careta que ela vestia como se fosse uma máscara. Essa dualidade, essa contradição, eram vagamente inquietantes.”

Bom, Contardo Calligaris é doutor em psicologia clínica, um italiano radicado no Brasil, e não precisa de muito mais para perceber que Carlo Antonioni é um alter-ego dele. A mulher de vermelho e branco é a segunda incursão do escritor na ficção – depois de O Conto do Amor -, mais especificamente o segundo livro com o mesmo personagem central. A impressão que eu tenho é que o autor usa com tanta propriedade a experiência de mergulhar na mente humana que acaba fazendo do leitor o próprio paciente.

Carlo nos conduz pela história dessas mulheres, compartilha suas observações sobre o comportamento delas, até divide indagações e inseguranças. Mas ficamos bem longe de conhecermos ele a fundo. Exatamente como acontece numa terapia, quando pouco sabemos sobre a vida do psicólogo. O mistério é bem-vindo, nos deixa imaginar. No meio de uma investigação policial, o mais interessante é enxergar as situações como um grande parque de diversões psicológico.

Tenho que dizer que não encontrei um grande trabalho de lapidação de palavras na obra. O que não significa que não seja um texto inteligente e fluido. A minha aposta é que as próximas tramas do Calligaris serão ainda mais saborosas.

Pesquisando sobre ele, encontrei uma ótima entrevista na Marie Claire. Foi realizada em 2008, mas é tão legal como se tivesse sido feita hoje. Para se ter ideia, ele diz que o melhor filme sobre gravidez é Alien (1979) e que não tem interesse na felicidade: “a gente foi convencido pela ideia de que o sofrimento não deve fazer parte de nossas vidas”.

Foto de Contardo: Tom Cabral/ Santo Lima.

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Resenha | Um livro dentro de um livro olhando pra outro livro

Publicado por em 3/05/2011 | Um comentário

colaboração especialíssima de Catarina Cristo

William Burroughs - Foto: Robert Mapplethorpe

Burroughs, um beat, fotografado por Robert Mapplethorpe que, ao lado de Patti Smith, são os personagens de Só Garotos

Quem gosta de livro é assim, vive pendurado nas newsletters das lojas on-line atrás de descontos e avisos de “frete grátis”. Quando aparecem, eu geralmente compro mais de um. E, numa deliciosa conincidência, dois livros que para mim não estavam relacionados vieram conversar na minha estante. E, também por acaso, escolhi lê-los na ordem certa e um acabou fazendo referência ao outro, colocando um livro dentro do livro e esse olhou para outro livro. Vamos a eles.

Os Beats (Benvirá, 2010) me apareceu num folhetinho de propaganda de natal de uma livraria. Recortei as capinhas dos livros que eu queria comprar, colei na agenda e guardei pra não esquecer. Esse título reúne duas paixões minhas: a geração Beatnik e Harvey Pekar.

Capas dos livros "Os Beats", de Harvey Peakar, e "Só garotos", de Patti Smith

Os Beats foram uma descoberta do fim da adolescência, nas estantes dos meus tios e na Biblioteca do CAC (Centro de Artes e Comunicação da UFPE, onde estudei) e me encantei mais com o espírito do que com as estórias: quebrar regras, sair da mesmice, testar limites, dar vazão aos instintos. Os Beats faziam isso no dia a dia e também na literatura. Foi minha “iniciação”, foi minha permissão pra arriscar, minha versão do punk.

De Harvey Pekar, eu tinha ouvido falar tanto e nunca tinha podido comprar. Já tinha visto American Splendor, já tinha lido sobre a amizade dele e de Robert Crumb mas as Hqs eram caras. Até que uma promoção numa loja on line (sempre elas) com vários títulos a R$ 10 trouxe ele aqui pra casa. Dá pra ler como se um amigo lhe contasse histórias e quando Crumb desenha pra ele as histórias ficam perfeitas. Tem sarcasmo, ironia e nenhuma autopiedade no texto de um e no traço do outro e eles juntos são, definitivamente, uma obra de arte.

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Pode me chamar de Admirável Mundo Novo

Publicado por em 17/03/2011 | Deixe um comentário

"O Brave New World (That Has Such People in It)" - Ramsey Arnaoot

Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, fala de um mundo que eu espero nunca ver. Na narrativa, os livros são todos queimados e, para preservá-los, as pessoas escolhem um e o decoram palavra por palavra, passando a atender pelo título da obra. Então o Alessandro Martins, do Livros e Afins, propôs uma blogagem coletiva para hoje: se você fosse um livro em Fahrenheit 451, qual seria?

Não precisei pensar muito sobre o assunto para concluir que não deixaria o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, se extinguir do mundo. Sim, eu o decoraria palavra por palavra (ainda bem que é uma situação fictícia, pois minha memória é péssima!). É uma daquelas obras que você pensa: putz, não poderia passar pela vida sem tê-la lido.

Escrita em 1932, a obra de Huxley descreve uma sociedade no futuro onde as pessoas vivem em castas pré-determinadas na fecundação, pois elas são condicionadas biologicamente. No nascimento, elas também recebem intruções psicológicas e há a droga soma, cujo uso é indicado sempre que surgirem as totalmente inaceitáveis emoções: insegurança, medo, felicidade ou atitudes impulsivas como dar vazão ao amor.

É um mundo muito louco, mas não precisa pensar demais para encontrar inúmeras analogias com o que vivemos hoje. Não à toa, o livro serviu de inspiração para cinema, música, mais literatura. O Iron Maiden tem álbum e música chamados Brave New World, The Strokes tem música de nome Soma. O filme Equilibrium tem forte inspiração na história, bem como faz O Demolidor, com Stallone.

Ilustração criada por Ramsey Arnaoot

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O tapa de Borges nos intelectuais

Publicado por em 5/02/2011 | 2 comentários

Há um tema caro, e, por isso, pouco exposto dentro do sistema literário. Entre escritores, editores, críticos, professores, observa-se o esforço em parecer sábio. É inegável que a intelectualidade não se faz apenas de especialistas, mas também do esforço em parecê-lo, por meio da reprodução de informações consideradas cultas.

Essas atitudes recheadas de hipocrisia encontram no argentino Jorge Luís Borges uma crítica sofisticada, delineada pela mais pura ironia. Na obra do escritor, dois contos podem ser destacados por darem “tapas com luvas de pelica” na sociedade culta: Funes, o Memorioso e Pierre Menard, autor de “Quixote”.

Senhor que parece com Jorge Luís Borges. Foto: Ricardo Greene

No primeiro, um excêntrico jovem que sempre sabia as horas ganha uma habilidade irreal ao sofrer um acidente, na cidade uruguaia de Fray Bentos. Inexplicavelmente, numa fatalidade que o deixou paralítico, ele passa a acumular na memória todos os fatos, detalhes, sensações sentidas desde então, uma sobreposição sem fim.

Um dos sinais mais fortes dessa crítica à hipocrisia intelectual no conto é que Funes, o jovem, em vez de lamentar a sua tragédia, a considera uma graça conquistada: “Pouco depois averiguou que estava paralítico. Fato pouco o interessou. Pensou (sentiu) que a imobilidade era um preço mínimo. Agora a sua percepção e sua memória eram infalíveis”. Ora, como poderia não ser uma dissimulação alguém não lamentar a total perda dos movimentos físicos?

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