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Tatuagens com vida própria, por Ray Bradbury

Publicado por em 2/09/2016 | Deixe um comentário

O homem ilustrado

Parte da capa do livro The Illustrated Man, de Ray Bradbury

 

Eu lhe darei desenhos especiais que o senhor jamais esquecerá. Desenhos do Futuro em sua pele.’ Ela o espetou com a agulha. (…)
Ele voltou correndo ao parque de diversões naquela noite, inebriado de terror e júbilo. Ah, como a velha bruxa da poeira tinha o enchido de desenho e cor. Ao final de uma longa tarde sendo picado por uma cobra prateada, seu corpo ganhou vida com os desenhos. Parecia que ele havia caído e sido esmagado entre os rolos de aço de uma prensa gráfica e saído como uma incrível rotogravura. Vestia uma roupa com gigantes e dinossauros escarlates”.

Trecho de O Homem Ilustrado, de Ray Bradbury. Conto da coletânea A Cidade Inteira Dorme.



>> Leia a resenha sobre essa coletânea aqui no blog.

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[Resenha] A cidade inteira dorme, de Ray Bradbury

Publicado por em 31/05/2016 | 2 comentários

Gif A cidade inteira dorme

A coletânea de 13 contos A cidade inteira dorme, de Ray Bradbury, é o livro mais esquisito que eu me lembro de ter lido, no sentido mais maravilhoso que isso pode ter.

Nele eu finalmente encontrei o tão cultuado e amado escritor norte-americano, que viveu entre 1920 e 2012.  E posso adiantar que se você é fã de literatura fantástica, pode beber dessa fonte sem ressalvas.

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Insights sobre o calor por Ray Bradbury

Publicado por em 25/01/2016 | Deixe um comentário

Pôr do sol

Se você mora no Brasil, é provável que vá entender bem o que eu tô falando. Porque aqui no Recife todo dia a gente tá levando uma surra de calor. O clima abafado, a gente suando, e as folhas das árvores que não balançam.

Por isso que quando li esse trecho do conto O Homem em Chamas, do Ray Bradbury, me remeteu ao sentimento que dá nesse clima. A gente não fica normal não andando debaixo desse sol.

Num dia como hoje, o inferno todo está solto dentro de sua cabeça. Lúcifer nasceu em um dia assim, em uma desolação como esta’, disse o homem. ‘Com apenas fogo e chamas e fumaça por toda parte’, disse o homem. ‘E tudo tão quente que você não conseguia tocar, e as pessoas não querendo ser tocadas’, disse o homem.

(…) Ouçam. E se o calor intenso, quero dizer, o calor realmente quente, quente de um mês como este, em uma semana como esta, em um dia como hoje, simplesmente produzisse um Homem Mau, feito de lama do rio assada. Que estava ali, enterrado na lama por quarenta e sete anos, como uma maldita larva, esperando vir à luz. E ele despertasse com uma sacudida e olhasse em volta, totalmente adulto, e saísse da lama quente para o mundo e dissesse: ‘Acho que vou comer um verão’.”

Queixas à parte, A Cidade Inteira Dorme, coletânea de histórias do autor de Fahrenheit 451 foi a minha primeira leitura finalizada de 2016. E-QUE-HIS-TÓ-RIAS! Em breve, venho contar mais.

Mais sobre Bradbury no blog:

Bradbury e o que não pode acontecer, por Diogo Monteiro
Em 1953, Fahrenheit 451 criticava a redução dos clássicos

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Em 1953, Fahrenheit 451 criticava a redução dos clássicos

Publicado por em 7/10/2014 | 2 comentários

Fahrenheit 451 by act of acadia

Clássicos reduzidos para se adaptarem a programas de rádio de 15 minutos, depois reduzidos novamente para uma coluna de livro de dois minutos de leitura, e, por fim, encerrando-se num dicionário, num verbete de dez a doze linhas. Estou exagerando, é claro. Os dicionários serviam apenas de referência. Mas, para muitos, o Hamlet, certamente você conhece o título, Montag; provavelmente a senhora ouviu apenas uma vaga menção ao título, senhora Montag, o Hamlet não passava de um resumo de uma página num livro que proclamava: Agora você pode ler finalmente todos os clássicos; faça como seus vizinhos. Está vendo? Do berço até a faculdade e de volta para o berço; este foi o padrão intelectual nos últimos cinco séculos ou mais.”

A atualidade das distopias escritas no meio ou até no começo do século é sempre surpreendente, por mais que seja batida. É incrível que, já em 1953, ano de publicação de Fahrenheit 451, Ray Bradbury estivesse incomodado com a desvalorização das grandes obras da literatura, de forma a colocar isso na boca de um personagem. O trecho me fez lembrar dos milhares de resumos dos clássicos que você encontra na internet, muletas certas para alunos “obrigados” a ler Machado de Assis, José de Alencar, Guimarães Rosa, etc. E ainda da adaptação dessas e outras grandes obras para os quadrinhos. Não que eu seja contra, adoro quadrinhos – inclusive minhas estreias como leitora foram com A Turma da Mônica. Mas é importante que resumos e adaptações facilitadas sirvam de iscas para as obras originais, precisam vir acompanhadas com a mensagem da importância de ler os clássicos.

O livro é a minha leitura atual, com aquele quê de como é que eu não li esse livro antes? (bem que uma amiga disse). Tô achando a história fantástica, e depois venho contar mais pra vocês.

Imagem de Act of Acadia, daqui.

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Bradbury e o que não pode acontecer

Publicado por em 9/06/2012 | Deixe um comentário

Ray Bradbury por Alan Light

Por Diogo Monteiro

Ninguém me dava medo (ou aquele estranhamento, aquele incômodo, que precede o medo em milésimos de segundo) de uma maneira tão honesta quanto Ray Bradbury. Seu sistema era simples. Ele estabelecia a mais confortável e familiar das situações e depois começava a despetalar a sua normalidade, camada por camada, até que o mundo ficasse de cabeça para baixo, pendurado sobre o abismo. Aquele abismo que eu não canso nem nunca vou cansar de revisitar.

Seu cenário ideal era o subúrbio. O subúrbio americano de propaganda de waffles dos anos 50, aquela comunidade pacata, perfeitinha, sem cercas, de gramados verdes, onde todos se conhecem, onde o ser humano (ou o americano de classe média) estava salvaguardado de todas as ameaças do frenético e caótico mundo lá fora. Uma velha senhora viúva assolada pelo som de pequenos passos no sótão, que podem ou não ser de ratos; uma solteirona voltando para casa de uma sessão noturna de cinema, flertando com a possibilidade de estar sendo seguida por um assassino que não se vê; crianças que brincam no quintal, preparando uma invasão alienígena.

Eu aprendi a gostar dele guiado pela mão do medo. Mas era mais que isso. Bradbury ficou conhecido como um dos grandes popularizadores da Ficção Científica. O que é irônico, porque ele mesmo chegou a afirmar que escrevia fantasia e que criara apenas um livro de FC na vida: Fahrenheit 451. “Fantasias são coisas que não podem acontecer. A ficção científica é sobre coisas que podem”, costumava dizer.

Capas Farenheit 451 e As Crônicas de Marte.

Fahrenheit 451 ficou conhecido como um livro sobre o totalitarismo, a censura e a ameaça ao livre pensamento, com sua história sobre uma sociedade onde os bombeiros deixaram de apagar incêndios para trabalhar como incineradores de livros. O que é irônico, porque, na verdade, Bradbury estava mais interessado em fazer uma alegoria de como a televisão e outras mídias destruíam o hábito da leitura. Ingênuo, talvez, mas não tão apartado assim da realidade.

As Crônicas Marcianas não eram ficção científica. Eram somente um jeito de dar vazão a uma fantasia que não cabia situada na Terra. Bradbury levou seu subúrbio para Marte e lá continuou desmontando-o.

Mas, para além da fantasia, da ficção científica ou de uma pitada descuidada de engajamento político, Ray Bradbury sabia de mais uma coisa ou outra. Sabia que há na fantasia uma dose de poesia, e uma a mais de melancolia. Melancolia, porque quem escreve ou lê sobre “o que não pode acontecer” sabe e se recente das fronteiras desse mundo. Sabe que o homem é melhor e maior do que a sua realidade, e dela prisioneiro. Sabe que a poesia, o alumbramento e o medo que a gente carrega não cabem nesta Terra, e dela transbordam.

Bradbury era isso. Era a fantasia transbordando do copo raso do mundo.

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Vocês não sabem o quanto fico feliz de ter um texto de Diogo aqui, o Menos um na estante sobe aí uns degraus. Só porque Diogo é um dos caras mais inteligentes que eu conheço e dos que mais entende de literatura, pessoa da melhor qualidade, amigo e casado com uma grande amiga. Sem esquecer que será um grande escritor, assim que se deixar ser lido (dá pra sentir o clima aqui no NotaPE). Fazia tempo que eu enchia o saco por uma contribuição dele no humilde bloguinho, e de repente ele se ofereceu pra escrever esse texto lindo, no triste 5 de junho da morte de Bradbury, que tinha 91 anos.

Foto de Ray Bradbury autografada pelo próprio, de Alan Light, em 1975.

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Pode me chamar de Admirável Mundo Novo

Publicado por em 17/03/2011 | Deixe um comentário

"O Brave New World (That Has Such People in It)" - Ramsey Arnaoot

Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, fala de um mundo que eu espero nunca ver. Na narrativa, os livros são todos queimados e, para preservá-los, as pessoas escolhem um e o decoram palavra por palavra, passando a atender pelo título da obra. Então o Alessandro Martins, do Livros e Afins, propôs uma blogagem coletiva para hoje: se você fosse um livro em Fahrenheit 451, qual seria?

Não precisei pensar muito sobre o assunto para concluir que não deixaria o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, se extinguir do mundo. Sim, eu o decoraria palavra por palavra (ainda bem que é uma situação fictícia, pois minha memória é péssima!). É uma daquelas obras que você pensa: putz, não poderia passar pela vida sem tê-la lido.

Escrita em 1932, a obra de Huxley descreve uma sociedade no futuro onde as pessoas vivem em castas pré-determinadas na fecundação, pois elas são condicionadas biologicamente. No nascimento, elas também recebem intruções psicológicas e há a droga soma, cujo uso é indicado sempre que surgirem as totalmente inaceitáveis emoções: insegurança, medo, felicidade ou atitudes impulsivas como dar vazão ao amor.

É um mundo muito louco, mas não precisa pensar demais para encontrar inúmeras analogias com o que vivemos hoje. Não à toa, o livro serviu de inspiração para cinema, música, mais literatura. O Iron Maiden tem álbum e música chamados Brave New World, The Strokes tem música de nome Soma. O filme Equilibrium tem forte inspiração na história, bem como faz O Demolidor, com Stallone.

Ilustração criada por Ramsey Arnaoot

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