Posts com a tag "minha estante"

O sabor que tem, por Keila Brito

Publicado por em 23/08/2012 | Um comentário

Mas se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida.

Em Leite Derramado, Chico Buarque.

Foto: Keila Brito

Por Keila Brito*

Finalmente, Menos um na estante! Essa foi a vez do Leite Derramado, mais uma “composição” delicada, poética e surpreendente do Chico. Apenas pelo fato de ser Dele, confesso, já simpatizo com a obra antes mesmo de folheá-la. Mas depois de degustar gota a gota, me permito escrever com propriedade sobre o sabor que esse livro tem.

O Leite Derramado é um convite para mergulhar fundo nas lembranças, sonhos e devaneios de Eulálio. É o caminhar nas fantasias e realidades de um ancião que desfia seu rosário no leito de um hospital. Se existem ouvidos atentos ou não, pouco importa; ele continua a desfiar.

É como ler pensamentos em silêncio. Em uma desordem poética tão delicada que envolve o leitor na reconstrução dos “fatos”, despertando o desejo de um copo a mais a cada página virada.


* Fica a dica de leitura da amiga querida, que sempre manda bem e com franqueza quando se dispõe a escrever. Obrigada pela participação, Keilha. ;)

A foto também é dela.

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Daytripper: #menos1naestante de Lucas Lima

Publicado por em 6/01/2012 | Deixe um comentário

por Lucas Lima

Como Márcia, sou aficionado por livros, por leitura – apesar de ter minhas crises e deixá-los de lado por um tempo. Depois de muita cobrança, decidi escrever um pouco sobre minha última leitura, terminada à 0h40 desta quinta-feira. Daytripper, quadrinho dos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá, premiados com um Eisner Awards, o Oscar da categoria – eles já tinham três e aumentaram o montante com a obra. O trabalho apresenta um jornalista, escritor de obituários, e suas diversas mortes – até porque viver é morrer um pouco a cada dia (quem disse isso mesmo?).

Os irmãos explicam que o objetivo da obra é fazer o público realmente sentir – pelos traços, pelas cores, pelas palavras. Sentir com a história da criança que passa alguns fins de semana com toda a família no campo, do jovem que se apaixona por uma mulata, do marido em crise, do filho ressentido. São muitas as histórias, e todas se unem nos detalhes – e a morte de cada momento é um marco, que, de certa forma, deve ser reverenciado.

Nessa minha fase emotiva – ou mela-cueca, como diria um amigo –, a leitura acertou em cheio os meus sentimentos. Depois de destacar vários trechos, várias imagens, decidi acabar essa escrita com essa parte:

Página do livro "Daytripper", de Fábio Moon e Gabriel Bá

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Bom demais começar o ano recebendo um pouquinho das ideias de Luquinhas, amigo querido. Tem mais dele no Mientras e no Cacimba de Letras.

E Daytripper, só aumenta a minha vontade de ler, já tinha sido sugestão por aqui.

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Os 112 anos do bruxo argentino, por Tiago Martins

Publicado por em 25/08/2011 | Deixe um comentário

Não criei personagens. Tudo o que escrevo é autobiográfico. Porém, não expresso minhas emoções diretamente, mas por meio de fábulas e símbolos. Nunca fiz confissões. Mas cada página que escrevi teve origem em minha emoção. (Jorge Luís Borges)

Hoje, se vivo, o viejo brujo estaria completando 112 anos. Vivo não está, mas permanecerá eterno. Com versos de uma simplicidade hermética, sempre preciso e afiado como um bisturi, Jorge Luís Borges segue embalando gerações de leitores em todo o mundo. A mágica de sua obra é a qualidade em dizer as coisas simples de forma transparente e lúcida. Borges nasceu Argentino, mas sua prosa e principalmente sua poesia é universal.

Jorge Luis Borges

Existem grandes autores que para serem compreendidos necessitam de um grande esforço, que deixa o leitor, às vezes, exausto e sem interesse. Na obra de Borges, o arrebatamento e a sublimação chegam antes desse cansaço.

Jorge Luís Borges é desses autores que conseguem comunicar esplendidamente, que falam de maneira inequívoca às mentes e aos sentimentos. Era iluminado e luminoso, embora cego. Perdera a vista no ano de 1955.

Aos oitos anos, Borges decidiu que seria escritor. Pegou da pena e do lápis e, escreveu seu primeiro conto: La visera fatal. Oitenta anos depois, mesmo cego, velho, encurvado sob o peso da idade e sob o signo da descrença, ainda prosseguia ditando as palavras. Sua mãe, Leonor e sua secretária particular, amiga e no final da vida esposa, Maria Kodama eram seus olhos. Seguiu publicando livros que ditava por inteiro, cada vez mais belos. Esperava-se o Nobel, que não chegou até a sua morte em 1986.

“Não, não tenho nenhuma sabedoria”, afirmava o Bruxo quando lhe comentavam ser o último sábio sobre a Terra. Completava arrematando: “Li e reli quase sempre os mesmos livros”. Falava, com certa ironia na voz forte e marcante; era sábio sim.

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Vocês acabaram de ler a contribuição especialíssima do amigo Tiago Martins. Grande leitor, já tinha indicado 5 autores para se ler no inverno por aqui. Obrigada, Tiago :)

Para quem gosta do autor argentino, vale também escutar no blog do Almir de Freitas 26 textos de Borges lidos pelo próprio.

Hoje, não se falou em outra coisa por causa da homenagem do Google.

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#minhaestante – por Alex Luna

Publicado por em 23/05/2011 | 5 comentários

Quando Mari me chamou pra participar de uma seção do blog dela, o de bubuia na bubuia, chamada “minha estante”, eu adorei. Era uma ideia que eu queria ter tido para o Menos um. Então ela propôs que fizéssemos juntas, convidando as pessoas e linkando os depoimentos de um blog para o outro. Só que eu nunca tinha convidado ninguém.

Até que o Alex Luna, mais conhecido como Tarrask, que é publicitário e tem ideias bem legais (vide o blog The Worst Kind of Thief – adoro esse nome!), estava contando no Twitter como a biblioteca dele estava se tornando virtual. Isso me despertou vontade de convidá-lo pra inaugurar a seção aqui e ele topou na hora. Mandou um texto que vale cada parágrafo, uma defesa pragmática dos e-books, observações sobre o futuro presente dos livros em papel. O Menos um na estante agradece :)

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Os prazeres do cigarro eletrônico

Livros lidos entre 1998 e 2004, aproximadamente

Livros lidos entre 1998 e 2004, aproximadamente

Meu nome é Alexandre e eu sou viciado em ler. Desde muito pequeno, sempre tive muitos livros em casa. Na pré-adolescência, meu pai me levava a sebos, onde eu despejava dezenas de livros lidos e trazia outras dezenas novas para casa. Há uns dez anos, comecei a anotar a quantidade de livros não-profissionais que eu leio. No meu ano mais profílico, passei dos 80.

Ontem, eu tive que fazer um largo trajeto de trem. Uma hora de ida, outra de volta. Situação perfeita para pegar um livro novo e começar a leitura no caminho. Se tivesse menos de 200 páginas, eu provavelmente acabá-lo-ia.

Aí eu descobri que não tinha absolutamente nenhum livro de papel não lido em casa, pela primeira vez desde que consegui ler uma placa que dizia Mimo do Céu, numa feira-livre. Um frio me correu pela espinha. Será que eu já tinha lido tudo? Será que os clássicos acabaram e agora eu só teria que repetir? Será que eu passaria ao outro vício, uma droga pior ainda?

Não era isso. Foi o resultado de um ano praticamente sem comprar nenhum livro de papel.

Vamos queimar a Biblioteca de Alexandria com Umberto Eco dentro

Durante 2010, descobri três grandes vantagens de ser leitor compulsivo e ter um leitor de livros eletrônicos.

# Vantagem 1: grana

Quando comprei um iPad, justifiquei a compra com o argumento profissional, estar atualizado, saber pra quê serve o troço. Também porque é um ótimo aparelho pra quem viaja e precisa estar online o tempo todo (e eu preciso ler o tempo todo, senão murcho). Mas a justificativa financeira é melhor: durante o ano passado, o que eu não comprei em livros foi menos do que eu investi no iPad.

Livros, gibis e feeds, muitos feeds

Livros, gibis e feeds, muitos feeds

# Vantagem 2: a disponibilidade de obras

Ao contrário do que dizem os puristas, a galera que diz que o livro vai acabar, yadda yadda, num Kindle é mais fácil ler Shakespeare ou Camões. Você tem dicionário e referências disponíveis na hora (e se você lê esses classicões sem referências, parabéns, é gênio ou tolo, provavelmente o segundo). Aliás, centenas de milhares de títulos estão ali, disponíveis para ler. Pensamos que nem todo livro está disponível em formato digital (não existe NENHUMA gramática da língua portuguesa disponível para a venda, vergonha das editoras luso-brasileiras) mas a quantidade de títulos é suficiente para saciar a minha voracidade de leitura e ainda sobra.

Ganhei o Graveyard Book, de deus Gaiman, e depois de lê-lo, comecei a ler O Livro das Selvas. Com um clique. Li em algum lugar uma referência a um conto de Tchecov, encontrei nos livros que já tinha baixado. Comprei e li o novo livro do Seth Godin. Adoro grifar e sublinhar frases e trechos, e logo depois da leitura, já tinha disponível no computador os meus próprios comentários, simplificando o processo de escrita do post-resumo do livro.

Só é difícil encontrar coisas em português

Só é difícil encontrar coisas em português

# Vantagem 3: transporte

De todas as mudanças que eu fiz na vida, esta talvez é a mais fácil. A grande maioria dos meus livros está numa estante na casa da minha mãe. São todos os que eu comprei e não emprestei até vir morar na Espanha, e mais uma ou duas malas de livros que eu já levei em outras viagens. Agora, só vou levar uma caixa, pequena, com os que pretendo usar em algum projeto, e o iPad.

Os poucos livros que vão acompanhar a última mudança

Os poucos livros que vão acompanhar a última mudança

Desvantagens existem no paraíso digital?

Dá pra procurar desvantagem em tudo. Vi uma palestra do Umberto Eco, quando estava lançando O Cemitério de Praga, e fiquei com muita vontade de lê-lo. Infelizmente, por questões de reserva de mercado, a versão eletrônica ainda não foi publicada. Como o livro foi diagramado num computador, podemos dizer que por decisão editorial. Ainda há muita gente lutando contra os livros digitais. Vamos chamá-las de MPAA editorial.

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Resenha | Um livro dentro de um livro olhando pra outro livro

Publicado por em 3/05/2011 | Um comentário

colaboração especialíssima de Catarina Cristo

William Burroughs - Foto: Robert Mapplethorpe

Burroughs, um beat, fotografado por Robert Mapplethorpe que, ao lado de Patti Smith, são os personagens de Só Garotos

Quem gosta de livro é assim, vive pendurado nas newsletters das lojas on-line atrás de descontos e avisos de “frete grátis”. Quando aparecem, eu geralmente compro mais de um. E, numa deliciosa conincidência, dois livros que para mim não estavam relacionados vieram conversar na minha estante. E, também por acaso, escolhi lê-los na ordem certa e um acabou fazendo referência ao outro, colocando um livro dentro do livro e esse olhou para outro livro. Vamos a eles.

Os Beats (Benvirá, 2010) me apareceu num folhetinho de propaganda de natal de uma livraria. Recortei as capinhas dos livros que eu queria comprar, colei na agenda e guardei pra não esquecer. Esse título reúne duas paixões minhas: a geração Beatnik e Harvey Pekar.

Capas dos livros "Os Beats", de Harvey Peakar, e "Só garotos", de Patti Smith

Os Beats foram uma descoberta do fim da adolescência, nas estantes dos meus tios e na Biblioteca do CAC (Centro de Artes e Comunicação da UFPE, onde estudei) e me encantei mais com o espírito do que com as estórias: quebrar regras, sair da mesmice, testar limites, dar vazão aos instintos. Os Beats faziam isso no dia a dia e também na literatura. Foi minha “iniciação”, foi minha permissão pra arriscar, minha versão do punk.

De Harvey Pekar, eu tinha ouvido falar tanto e nunca tinha podido comprar. Já tinha visto American Splendor, já tinha lido sobre a amizade dele e de Robert Crumb mas as Hqs eram caras. Até que uma promoção numa loja on line (sempre elas) com vários títulos a R$ 10 trouxe ele aqui pra casa. Dá pra ler como se um amigo lhe contasse histórias e quando Crumb desenha pra ele as histórias ficam perfeitas. Tem sarcasmo, ironia e nenhuma autopiedade no texto de um e no traço do outro e eles juntos são, definitivamente, uma obra de arte.

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Minha estante no blog de bubuia na bubuia

Publicado por em 3/02/2011 | Um comentário

De bubuia na bubuia

via debubuianabubuia.wordpress.com

Por gostar do meu blog, a Mariana Leal acabou me convidando pra uma seção chamada #minhaestante, no blog dela, o De bubuia na bubuia (toda vez que vejo esse nome eu cantarolo, na cabeça, a música de Céu). A ideia da seção é ótima, talvez até a gente faça algumas em parceria :) Então eu tirei fotos, fiz um texto, ela fez a apresentação mais fofa, o resultado ficou ótimo e eu, feliz.

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5 autores para se ler no inverno

Publicado por em 23/08/2010 | Deixe um comentário

Ler no inverno

Foto: Bookporn.

Logo que criei o Menos1naestante, ganhei um mimo incentivador de um amigo: uma lista de autores para se ler no inverno. Tiago tinha escrito de bobeira e me ofereceu para que eu publicasse aqui no blog. Imagina que legal, assim, do nada, um top 5 de um leitor voraz e inteligente.

Como ainda era abril, esperei o inverno marcar mais presença para postar. Bom, a estação já caminha para o fim e estou tentando entender como deixei tanto tempo passar. Sorte que bons escritores são bons para qualquer época do ano, não? Confiram aí a seleção, e não deixem de visitar o blog dele, o De Veneta:

Por Tiago Martins

No início da noite deste sábado, durante o banho, vieram-me umas ideias insistentes de elencar cinco autores/livros para se ler neste inverno. Um banho que faz relaxar um pouco a mente e deixa os pensamentos fluírem mais tranquilos. Notei como a chuva já começa a tomar o espaço do sol, e ambos dividiam em partes iguais a “atenção” das pequenas plantas e árvores. O inverno é isso, penso.

Segue a lista. Fico feliz se alguém tiver tempo para saborear essas obras. E descobrir mais sobre esses autores que me são tão caros. Não coloco por ordem de preferência, nem alfabética e nem ordem alguma. Apenas um após o outro, assim, assim mesmo.

Alejo Carpentier
Alejo Carpentier

Escritor cubano nascido no ano de 1904, em Havana, um ano antes da independência do país. Filho de um arquiteto francês e de uma professora de línguas, de origem russa, que chega a Cuba dois anos antes do seu nascimento. O livro dele que indico é O Século das Luzes, uma análise minuciosa do surgimento dos ideais de liberdade em nosso continente americano e, ao mesmo tempo, uma novela histórica onde ele tenta nos mostrar uma vasta síntese da experiência americana.

José Saramago
José Saramago

Entre tantos livros bons deste autor português nascido na aldeia de Azinhaga na região de Ribantejo, indico Todos os Nomes, uma impressionante história de um modesto escriturário da Conservadoria Geral do Registo Civil, o Sr. José, cujo hobby é colecionar recortes de jornal sobre pessoas famosas. Um dia sua curiosidade acabará se concentrando num recorte que o acaso põe diante dele – a mulher focalizada ali não é célebre, mas o escriturário desejará conhecê-la a todo custo. Abandonando seus hábitos de retidão, ele comete pequenos delitos para alcançar o que deseja. Pequenas mentiras que darão à vida uma intensidade desconhecida.

Ítalo Calvino
Ítalo Calvino

O escritor italiano Ítalo Calvino não nasceu na Itália, mas em Santiago de Las Vegas, Cuba, a 15 de outubro 1923, onde seus pais estavam de passagem. O livro dele que indico é o Cidades Invisíveis, publicado em 1972. Na história, o veneziano Marco Pólo conta ao conquistador Kublai Khan todas as viagens que já havia feito. O livro é um desdobrar de territórios e uma viagem pelo reino da linguagem. Mostra a qualidade de um trabalho extremamente depurado que forma, ao final, uma metrópole atemporal e superpovoada de sentidos.

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