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Para se deixar seduzir pela menina má

Publicado por em 21/01/2012 | 2 comentários

 

Capa do livro "Travessuras da menina má", de Mario Vargas Llosa

O mérito de estar no título da obra de Mario Vargas Llosa não é à toa. A menina má é fascinante. Quando a gente termina a última página do livro, percebe que desenvolveu por ela um sentimento tão doentio quanto o que nutre Ricardito, o peruano narrador da história. Uma mistura de “Ufa, me livrei!” com “E agora, o que é que eu faço?”.

Em Travessuras da menina má (Alfaguara, R$ 47,90), o trunfo na manga de Vargas Llosa é a super construção do personagem. Digo isso porque é difícil pensar alguma situação, algum problema que não tenha acontecido ao longo da vida dessa moça. E ainda assim ela não se torna inverossímil, é até possível imaginar que existe por aí mulher tão intensa, sequelada e sedutora.

“Falava sem deixar de sorrir, movendo a boca com uma brejeirice mais refinada que antes. Contemplando seus lábios marcados e sensuais, arrulhado pela música de sua voz, tive um desejo enorme de beijá-la. Senti um aperto no coração.”

O livro conta a vida de Ricardito, um peruano cuja grande ambição era morar em Paris. O problema é que na adolescência, ele se apaixona por uma chilenita caliente, de ombros soltos e olhos dissimulados sedutores. A verdade não é a especialidade da garota, que desaparece da vida dele. Afinal, as ambições dela são muito maiores, um empecilho para uma história de amor como a gente vê nos filmes.

“E, com sua personalidade gélida, não hesitava em me procurar, convencida de que não havia dor, humilhação, que ela, com seu poder infinito sobre os meus sentimentos, não fosse capaz de apagar em dois minutos de conversa.”

Em vários momentos, em situações diversas, em lugares inusitados, eles se separam e se reencontram, vivendo tórridos dias ou horas de romance. Ou só de sexo, sempre diferente, do tipo gato-e-rato, do tipo rindo, e em meio às mais exdrúxulas situações. Ele, sempre um apaixonado imbecil e obssessivo, a menina má sempre misteriosa e distante. E apesar das situações psicológicas complexas, o livro poderia até ser monotemático, mas está muito longe disso.

Há a política, com as descrições dos bastidores das revoluções do Peru e os movimentos de esquerda da França. Há as amizades intrigantes de Ricardito e há o turismo literário, onde o guia é Vargas Llosa apresentando peculiaridades e recantos de cidades da Europa, como Paris e Londres, sem falar em Tóquio. De forma que a sensação é a de acompanhar uma espécie de saga das relações humanas e da vida política na época.

Café Les Deux Magots, em Paris

Particularmente, tudo de Paris me saltou aos olhos, pois quando comecei a ler a obra, estava de viagem marcada para lá. E na volta, foi especial reconhecer ali alguns lugares que pude visitar ou apenas ver. Como o Café Les Deux Magots, super tradicional, famoso porque era frequentando por Hemingway, é onde acontecem alguns encontros entre a menina má e Ricardito.

Fotos de MuddyRavine.

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Amizade à peruana

Publicado por em 12/11/2011 | Deixe um comentário

– Estou me sentindo sozinho feito um cachorro abandonado, meu irmão – confessou.
– Você nem sabe como fico contente por ter vindo. Descobri que apesar de conhecer um milhão de gringos aqui, você é o único amigo que tenho. Amigo de amizade à peruana, dessas que vão até o tutano, quero dizer. Aqui as amizades são muito superficiais, mesmo. Os ingleses não têm tempo para amizade.

Londres

A fala em Travessuras da Menina Má, de Vargas Llosa, é de Juan para Ricardo. Juan é bissexual e sofre com uma doença desconhecida, que acaba com a sua imunidade e deixa seu estado cada vez mais grave. Numa época em que a AIDS ainda era misteriosa para as pessoas.

O problema é que às vezes me sinto meio inglesa, nesse sentido aí de não ter tempo para amizade. Tanta coisa para dar conta na vida, que é difícil ficar em dia com tudo. E isso me faz um mal. Mas aos poucos, a gente vai se organizando, e priorizando o que faz bem.

Foto de um pôr-do-sol em Londres, de Unai Mateo.

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Sobre esse tipo de amor com obssessão

Publicado por em 7/11/2011 | Deixe um comentário

Hotel Russel

“Eu continuava doido por ela. Foi só vê-la para reconhecer que, mesmo sabendo que qualquer relação com a menina má estava condenada ao fracasso, a única coisa que eu realmente desejava na vida, com a mesma paixão que outros dedicam a perseguir a fortuna, a glória, o sucesso ou o poder, era ela, com todas as suas mentiras, suas confusões, seu egoísmo e seus desaparecimentos. Uma breguice, sem dúvida, mas a verdade é que até a sexta-feira seguinte fiquei amaldiçoando a lentidão das horas que faltavam para o novo encontro.”

O trecho é de Travessuras da menina má, de Mario Vargas Llosa. A tal menina má toca o terror na vida de Ricardito, o personagem em cuja voz está o trecho acima. A foto é do Hotel Russel, em Londres, pois é lá que acontece o primeiro reencontro dos dois em muito tempo.

Foto de Andy Roberts.

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Turbilhão endiabrado

Publicado por em 20/05/2011 | Deixe um comentário

“Lily dançava num ritmo saboroso e cheio de graça, sorrindo e cantarolando a letra da canção, erguendo os braços, mostrando os joelhos e balançando a cintura e os ombros de tal maneira que todo o seu corpinho, modelado com tanta malícia e tantas curvas pelas saias e blusas que usava, parecia se encrespar, vibrar e participar do baile dos pés à cabeça. Quem dançava um mambo com ela sempre saía mal porque, como acompanhá-la sem se atrapalhar no turbilhão endiabrado daquelas pernas e pezinhos saltitantes?”

Dançarina - Foto: cobalt123

Hoje é sexta-feira, é dia de dançar assim, loucamente, como se não houvesse amanhã. O trecho é do Travessuras da menina má, do Mario Vargas Llosa. Eu ainda não cheguei à metade, mas há fortes indícios de que a Lily da dança endiabrada é a menina má do título do livro. Veremos.

Foto do Cobalt

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Rubião + Vargas Llosa: testando leituras simultâneas

Publicado por em 1/05/2011 | 2 comentários

Capas dos livros "A Casa do Girassol Vermelho", de Murilo Rubião, e "Travessuras da menina má", de Mario Vargas Llosa

Boa parte das pessoas que eu admiro na minha profissão ou na literatura se gabam de ler vários livros ao mesmo tempo. E eu sempre duvidei da eficácia disso. Porque ler, ao meu ver, merece um pouco mais de lentidão mesmo. Pede que você saboreie umas páginas e carregue aquelas palavras, pensamentos, personagens para onde for. Sabe quando você está trabalhando e a concentração escapa? Aí vem à cabeça aquele trecho que lhe marcou no livro. Leitura boa pra mim é essa que começa a fazer parte do dia a dia.

Não sei se ser multitarefa assim na leitura permite essas coisas. Mas eu confesso que é mais uma dúvida querendo que alguém me convença de que é possível e válido dar conta de 50 livros ao mesmo tempo. Porque, talvez, eu consiga ficar menos frustrada com as coisas que não tenho conseguido ler. Então, comecei a testar isso de uma forma bem natural.

Trecho do livro "Travessuras da menina má", de Mario Vargas Llosa

É que estou lendo os contos da literatura fantástica de Murilo Rubião, na coletânea A Casa do Girassol Vermelho, preparação para a minha monografia. Sendo que eu comecei a pensar muito, muito em Travessuras da menina má, de Vargas Llosa (trecho acima para o #grifeinumlivro), então percebi que era hora. Minha ideia é ainda acrescentar alguma leitura ligada ao meu trabalho, sobre internet, marketing, mídias sociais. Depois conto se deu certo.

E vocês, que acham da leitura simultânea?

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5 autores para se ler no inverno

Publicado por em 23/08/2010 | Deixe um comentário

Ler no inverno

Foto: Bookporn.

Logo que criei o Menos1naestante, ganhei um mimo incentivador de um amigo: uma lista de autores para se ler no inverno. Tiago tinha escrito de bobeira e me ofereceu para que eu publicasse aqui no blog. Imagina que legal, assim, do nada, um top 5 de um leitor voraz e inteligente.

Como ainda era abril, esperei o inverno marcar mais presença para postar. Bom, a estação já caminha para o fim e estou tentando entender como deixei tanto tempo passar. Sorte que bons escritores são bons para qualquer época do ano, não? Confiram aí a seleção, e não deixem de visitar o blog dele, o De Veneta:

Por Tiago Martins

No início da noite deste sábado, durante o banho, vieram-me umas ideias insistentes de elencar cinco autores/livros para se ler neste inverno. Um banho que faz relaxar um pouco a mente e deixa os pensamentos fluírem mais tranquilos. Notei como a chuva já começa a tomar o espaço do sol, e ambos dividiam em partes iguais a “atenção” das pequenas plantas e árvores. O inverno é isso, penso.

Segue a lista. Fico feliz se alguém tiver tempo para saborear essas obras. E descobrir mais sobre esses autores que me são tão caros. Não coloco por ordem de preferência, nem alfabética e nem ordem alguma. Apenas um após o outro, assim, assim mesmo.

Alejo Carpentier
Alejo Carpentier

Escritor cubano nascido no ano de 1904, em Havana, um ano antes da independência do país. Filho de um arquiteto francês e de uma professora de línguas, de origem russa, que chega a Cuba dois anos antes do seu nascimento. O livro dele que indico é O Século das Luzes, uma análise minuciosa do surgimento dos ideais de liberdade em nosso continente americano e, ao mesmo tempo, uma novela histórica onde ele tenta nos mostrar uma vasta síntese da experiência americana.

José Saramago
José Saramago

Entre tantos livros bons deste autor português nascido na aldeia de Azinhaga na região de Ribantejo, indico Todos os Nomes, uma impressionante história de um modesto escriturário da Conservadoria Geral do Registo Civil, o Sr. José, cujo hobby é colecionar recortes de jornal sobre pessoas famosas. Um dia sua curiosidade acabará se concentrando num recorte que o acaso põe diante dele – a mulher focalizada ali não é célebre, mas o escriturário desejará conhecê-la a todo custo. Abandonando seus hábitos de retidão, ele comete pequenos delitos para alcançar o que deseja. Pequenas mentiras que darão à vida uma intensidade desconhecida.

Ítalo Calvino
Ítalo Calvino

O escritor italiano Ítalo Calvino não nasceu na Itália, mas em Santiago de Las Vegas, Cuba, a 15 de outubro 1923, onde seus pais estavam de passagem. O livro dele que indico é o Cidades Invisíveis, publicado em 1972. Na história, o veneziano Marco Pólo conta ao conquistador Kublai Khan todas as viagens que já havia feito. O livro é um desdobrar de territórios e uma viagem pelo reino da linguagem. Mostra a qualidade de um trabalho extremamente depurado que forma, ao final, uma metrópole atemporal e superpovoada de sentidos.

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Sobre desculpas, preços e presentes

Publicado por em 16/07/2010 | Um comentário

Descobri, por esses dias, que projeto de ler mais livros não combina com mudar de endereço enquanto se muda de emprego. É tanta coisa gritando por ser arrumada e resolvida, que outras importantes ficam em segundo plano. Ao mesmo tempo, é vida nova, descobertas. Isso só para justificar quase um mês sem postar nada.

Mudando de assunto, eu não costumo comprar livros porque tenho essa meta de ler os que eu já tenho. Curto ir na livraria dar uma olhada e me angustiar por tudo o que eu não estou absorvendo. Então, realmente fiquei espantada com os preços dos livros quando precisei lidar com eles de verdade. Escolhia um para dar de presente, um Érico Veríssimo. (Aliás, presentear com um livro parece algo tão simples. Só parece, porque é difícil descobrir uma obra cuja história gere interesse àquela pessoa em especial. Afinal, ninguém quer dar um presente que não ganhe uso).

Livros novos: "O Homem Proibido", de Nelson Rodrigues; "Só para mulheres", de Clarice Lispector; e "Travessuras da Menina Má", de Vargas Llosa.

Mas voltando ao $$, é difícil achar algo decente por menos de R$ 40. Mas tive que me render. Inclusive, não resisti à capa tão linda desse O Homem Proibido, na foto, que ainda leva a curiosidade de Nelson Rodrigues tê-lo assinado como Susana Flag. Para completar, meu aniversário trouxe acréscimos à estante – que não esvazia na mesma proporção em que enche: Clarice Lispector – Só para mulheres parece ser uma delícia. Imagina conversa de mulher-para-mulher com Clarice? E o outro é Travessuras da Menina Má, de Vargas Llosa, que há de inaugurar minha entrada no mundo desse autor.

E o ano já está no meio.

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