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São Paulo: livros em bares e locais subterrâneos

Publicado por em 19/06/2012 | 5 comentários

Entrada do Passagem Literária

Passei uns dias em São Paulo há algumas semanas e acabei conhecendo dois lugares livrescos bem legais. O primeiro foi o sebo Passagem Literária, peculiar pois fica na passarela subterrânea da estação Consolação, para quem precisa cruzar a avenida. No caminho, tem um sebo. Ainda assim, nesse ponto estratégico, a impressão é de que pouca gente o conhece. Na objetividade paulistana, poucos param e menos ainda compram.

Talvez por isso o dono do sebo, um senhor barbudo, tenha se mostrado um pouco hostil quando cheguei com uma amiga fotografando e mexendo nos livros (ok, deve ser bem complicado manter o controle sobre todas aquelas pilhas em meio a tanta gente passando). Passei algumas horinhas fuçando, pegando, folheando, abrindo, fechando, recolocando no lugar, amolegando. Gostei de muita coisa, títulos em bom estado, mas achei os preços salgadíssimos. Preços de novos por aqui, ou pior.

Até que cheguei a uma capa linda, e era um Nabokov: Fogo Pálido, por R$ 15. Nunca tinha ouvido falar na obra, mas o autor e a capa definiram a compra. Para completar o combo, perguntei pelo Lolita e tinha, por R$ 18 que viraram R$ 15 nas mãos do senhor barbudo, agora sem réstias de hostilidade. Inclusive ele começou a me babar tanto, que até deu lencinhos umedecidos pra eu limpar as mãos da fuligem-de-avenida-paulista-com-metrô, que abraça os livros e não tem limpeza que dê jeito. Mas fiquei me perguntando: será que foi só porque eu ia comprar ou porque ele ama Nabokov?

Pelo que ele me explicou, o sebo abriu há uns seis anos, mas acabou passando quase cinco fechados por falta de incentivo. Reabriu há pouco. Nas paredes, sempre há exposições de artes plásticas e afins, e isso é um compromisso assumido pelo Passagem Literária. O legal é que depois que Diogo viu minhas aquisições, disse que Fogo Pálido era um dos melhores livros da vida dele e eu tive certeza de que fiz um bom negócio.

Mercearia São Pedro: com Paulinho

O outro lugar foi o Mercearia São Pedro, um bar agradável na Vila Madalena. Em boa parte do espaço, normal, com mesas e cadeiras, pessoas descoladas e um toque olindense. Na outra área, tem a mercearia e no meio dela, um monte de estantes com livros novíssimos prontos para serem comprados. O engraçado é que os títulos também são caros, apesar do lugar e da apresentação malajambrada. Só pode ser um raciocínio turístico.

Não importa tanto porque com eles à disposição, o Mercearia São Pedro ganha um charme todo especial, complementado com pasteis saindo na hora, cerveja gelada e boa música. Na minha opinião, os livros deviam ter mais espaços assim, bem perto de cerveja, petiscos, música e gente.

Agradecimentos especiais a Keila, Marta e Paulinho, por me apresentarem a esses lugares e/ou pousarem lindos nas minhas fotos. Sem eles, esse post não existiria.
Sebo Passagem Literária
Rua da Consolação, esquina com a Avenida Paulista.
De segunda a sexta, das 7h às 22h, sábados, domingos e feriados, das 10h às 22h.

Mercearia São Pedro
Rua Rodésia, 34 – Pinheiros – São Paulo, 05435-020
11 3815-7200

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Bradbury e o que não pode acontecer

Publicado por em 9/06/2012 | Deixe um comentário

Ray Bradbury por Alan Light

Por Diogo Monteiro

Ninguém me dava medo (ou aquele estranhamento, aquele incômodo, que precede o medo em milésimos de segundo) de uma maneira tão honesta quanto Ray Bradbury. Seu sistema era simples. Ele estabelecia a mais confortável e familiar das situações e depois começava a despetalar a sua normalidade, camada por camada, até que o mundo ficasse de cabeça para baixo, pendurado sobre o abismo. Aquele abismo que eu não canso nem nunca vou cansar de revisitar.

Seu cenário ideal era o subúrbio. O subúrbio americano de propaganda de waffles dos anos 50, aquela comunidade pacata, perfeitinha, sem cercas, de gramados verdes, onde todos se conhecem, onde o ser humano (ou o americano de classe média) estava salvaguardado de todas as ameaças do frenético e caótico mundo lá fora. Uma velha senhora viúva assolada pelo som de pequenos passos no sótão, que podem ou não ser de ratos; uma solteirona voltando para casa de uma sessão noturna de cinema, flertando com a possibilidade de estar sendo seguida por um assassino que não se vê; crianças que brincam no quintal, preparando uma invasão alienígena.

Eu aprendi a gostar dele guiado pela mão do medo. Mas era mais que isso. Bradbury ficou conhecido como um dos grandes popularizadores da Ficção Científica. O que é irônico, porque ele mesmo chegou a afirmar que escrevia fantasia e que criara apenas um livro de FC na vida: Fahrenheit 451. “Fantasias são coisas que não podem acontecer. A ficção científica é sobre coisas que podem”, costumava dizer.

Capas Farenheit 451 e As Crônicas de Marte.

Fahrenheit 451 ficou conhecido como um livro sobre o totalitarismo, a censura e a ameaça ao livre pensamento, com sua história sobre uma sociedade onde os bombeiros deixaram de apagar incêndios para trabalhar como incineradores de livros. O que é irônico, porque, na verdade, Bradbury estava mais interessado em fazer uma alegoria de como a televisão e outras mídias destruíam o hábito da leitura. Ingênuo, talvez, mas não tão apartado assim da realidade.

As Crônicas Marcianas não eram ficção científica. Eram somente um jeito de dar vazão a uma fantasia que não cabia situada na Terra. Bradbury levou seu subúrbio para Marte e lá continuou desmontando-o.

Mas, para além da fantasia, da ficção científica ou de uma pitada descuidada de engajamento político, Ray Bradbury sabia de mais uma coisa ou outra. Sabia que há na fantasia uma dose de poesia, e uma a mais de melancolia. Melancolia, porque quem escreve ou lê sobre “o que não pode acontecer” sabe e se recente das fronteiras desse mundo. Sabe que o homem é melhor e maior do que a sua realidade, e dela prisioneiro. Sabe que a poesia, o alumbramento e o medo que a gente carrega não cabem nesta Terra, e dela transbordam.

Bradbury era isso. Era a fantasia transbordando do copo raso do mundo.

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Vocês não sabem o quanto fico feliz de ter um texto de Diogo aqui, o Menos um na estante sobe aí uns degraus. Só porque Diogo é um dos caras mais inteligentes que eu conheço e dos que mais entende de literatura, pessoa da melhor qualidade, amigo e casado com uma grande amiga. Sem esquecer que será um grande escritor, assim que se deixar ser lido (dá pra sentir o clima aqui no NotaPE). Fazia tempo que eu enchia o saco por uma contribuição dele no humilde bloguinho, e de repente ele se ofereceu pra escrever esse texto lindo, no triste 5 de junho da morte de Bradbury, que tinha 91 anos.

Foto de Ray Bradbury autografada pelo próprio, de Alan Light, em 1975.

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