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O Hobbit abriu o paladar para Tolkien

Publicado por em 29/01/2013 | 12 comentários

O Hobbit

Ler O Hobbit, de J.R.R. Tolkien, só me deu mais vontade de entrar mais no mundo criado pelo escritor britânico. Principalmente porque a impressão que eu tive é a de que eu estava diante de uma obra mais simples de Tolkien. Na verdade, a impressão que eu comprovei. Porque um amigo muito inteligente literariamente falando tinha me alertado: “Lembre que O Hobbit foi escrito para o filho dele”.

Ok, diante da alta expectativa que tenho de Tolkien, isso evitou uma frustração. Não entenda que o livro é ruim, muito pelo contrário. É um bom livro, com uma grande história. É só porque eu esperava que Tolkien exigisse mais do leitor, o que não acontece – e há de ser proposital. Outra coisa importante de saber é que O Hobbit é o primeiro livro de ficção dele, lançado em 1937. É onde começou o desenvolvimento de toda a Terra Média e suas criaturas fascinantes.

É uma história sobre sair da zona de conforto, e se jogar no desconhecido e perigoso em busca de frio na barriga, e ainda colaborando para uma causa nobre. Uma grande história sobre isso. E também sobre voltar pra casa e se perceber alguém completamente diferente. O hobbit Bilbo Bolseiro é convocado pelo mago Gandalf para acompanhar os anões desempenhando o papel de ladrão na perigosa aventura para reaver a Montanha Solitária. O lugar que outrora era do povo deles, com todo o ouro que eles passaram muito tempo juntando, tudo roubado pelo dragão Smaug.

Nós somos gente simples e acomodada, e eu não gosto de aventuras. São desagradáveis e desconfortáveis! Fazem com que você se atrase para o jantar! Não consigo imaginar o que as pessoas vêem nelas.

Palavras de Bilbo, pouco antes de embarcar na aventura.

Depois de ver os três O Senhor dos Anéis e o primeiro O Hobbit no cinema, ler o livro trouxe uma sensação bem interessante. Ao mesmo tempo em que havia a familiaridade com os personagens, todos ficaram mais próximos e eu comecei a entender melhor as motivações de cada um e o funcionamento da Terra Média.

O Hobbit, o filme

É um mundo fascinante esse em que as pessoas respeitam o que é dito de boca, ajudam oferecendo cama e banquetes a desconhecidos quando apóiam a causa deles, onde os grandes acontecimentos se transformam em canções entoadas de geração em geração. O fato é que me despertou uma vontade grande de ler todos O Senhor dos Anéis, e ainda ver todos os filmes de novo. A única coisa muito estranha é que não há mulheres na história, todos os personagens são masculinos. Tudo bem que na década de 30, as mulheres ainda estavam longe de ter o papel que têm hoje na sociedade, mas ainda assim é esquisito.

Comparando o filme O Hobbit, recém-lançado com o livro, posso dizer que há muitos detalhes diferentes. Sabe quando uma história é contada a fulano, que conta a cicrano, que conta a você? É como se ao recontar a história, os roteiristas preenchessem as lacunas que eles não lembravam do jeito que eles quisessem.

Mas no sentido geral, a transposição para o cinema me parece bem justa, passa o clima do livro. Pelo menos desse primeiro filme, que é apenas um terço da história. Fico particularmente feliz com o ator escolhido para interpretar Bilbo Bolseiro – já gostava muito do Martin Freeman na série britânica Sherlock, onde ele interpreta Watson. Vamos ver se tudo continua assim.

E para finalizar esse post com chave de ouro, uma galeria com capas antigas do livro, diretamente garimpadas daqui.

>> O Hobbit, o filme depois do livro

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Para se abraçar com Inverdades

Publicado por em 26/06/2012 | Deixe um comentário

Inverdades no iPad

Quando eu vi, tinha topado fazer a revisão. Fazia tempo que a gente conversava sobre escrever, ele falava sobre o novo projeto, eu tinha curiosidade. Tinha acabado de ler o primeiro título de Alex Luna, Elas e Outras Histórias, e achado legal. Um jeito muito peculiar de contar o amor e suas mulheres, as agruras e as delícias dos relacionamentos, todo tipo de referências. Mas eu sabia que tinha muito mais coelho pra sair desse mato. Então eu comecei a revisão do livro que quase se chamava Mentirinhas.

Bom, eu nunca revisei um livro. Tirei da minha gaveta a experiência de editar matérias do tempo de jornal e o que tinha aprendido sobre o que é e como se faz uma boa literatura. Com isso, tentei fazer algo útil. Quando mandei as primeiras revisões e Alex adorou, eu me empolguei pra ir em frente e me senti à vontade para dar ideias. Tarrask, como é mais conhecido, diz que fez muita diferença. Eu só acho que ajudei a dar um polimento no que já era bem bom.

Saiu o Inverdades: pequenas manifestações divinas em folhas de chá, marcas de sangue e manchas de batom. Um aposto auto-explicativo, uma edição digital com capa e ilustrações lindas da Cristina Santos. Faz um tempo que o e-book foi lançado, nem eu entendo como demorei tanto a contar por aqui. Acho que é a dificuldade de falar quando o envolvimento é grande (acabei de lembrar que nunca esmiucei a minha monografia sobre literatura fantástica por aqui).

Trecho de Eurídice

São 16 contos com temáticas diferentes, abertos por um prólogo genial, costurados pela escrita de Alex e pelas referências a músicas e à mitologia grega. Pouco pude aproveitar desta última, por conta dos meus conhecimentos limitados. Mas achei interessante me debruçar sobre os trechos de canções, muitas que marcaram infância e adolescência, por causa dos significados diferentes que ganham ao final do conto.

Os textos são quase sempre interessantes, mas há momentos especiais pra mim. A obssessão de Abraão repudia Agar, o desfecho nelson rodrigueano de São Jerônimo Penitente,  as atitudes redentoras de A história de Jonas, só para citar alguns. Fica difícil dizer o quanto a literatura de Alex amadureceu, só consigo pensar que o Inverdades dá à luz um escritor. Conheçam e me digam depois se concordam.

O Inverdades está disponível na Amazon por U$S 2,99.

PROMOÇÃO

Vejam que legal, Alex cedeu três cópias para eu sortear entre os leitores do Menos um na estante. Para participar, siga @menos1naestante no Twitter, e depois tuíte a seguinte frase (com o link).

 

Quero ler o novo Inverdades, do @tarrask, vou ganhar o e-book do @menos1naestante —> http://kingo.to/17WA

 

O prazo era hoje, quinta-feira, mas o Sorteie.me entrou em manutenção e prometeu voltar às 17h. Então as participações serão até sexta-feira, meio-dia, quando vai ocorrer o sorteio. Participem!

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A mulher de vermelho e branco é “number one”

Publicado por em 17/10/2011 | Deixe um comentário

Capa do livro "A mulher de vermelho e branco", de Contardo Calligaris

“Number One” é uma gíria usada por uma das personagens-chave do livro de Contardo Calligaris, LeeLee. É uma escala onde um é uma maravilha e dez é péssimo. Colocaria A mulher de vermelho e branco (Companhia das Letras, R$ 39) no topo desse ranking (Ok, number three). O livro é do tipo que prende a atenção, porém de uma forma madura. Nada de tirar o fôlego ou de não conseguir parar de ler para dormir. É elegante. Por exemplo, você está trabalhando e se pega pensando na situação dos personagens.

Engraçado é que o apego não é ao protagonista da trama, o psicanalista Carlo Antonioni. Brasileiro, radicado em Nova York, é pelo ponto de vista dele que acompanhamos duas histórias intrigantes de mulheres bem diferentes. A primeira, a paciente Woody Luz, uma americana quase brasileira, mãe de dois filhos, com sérias dificuldades de relacionamento com o marido marroquino Khaloufi, sendo o choque-cultural um dos principais pontos.

E tem LeeLee, ex-namorada dele. Personagem tão especial que, se fosse no cinema, a atriz que a incorporasse seria uma das favoritas ao oscar de coadjuvante. Uma mulher vietnamita que passou por maus bocados ao fugir da guerra do Vietnã para encontrar refúgio em Paris. Décadas depois, LeeLee ainda tem uma obssessão por se livrar dos fantasmas do passado e é com a ajuda de Carlo que isso vai acontecer.

“Eu ficava com a impressão de que a jovem descolada, de uma hora para outra, denunciaria aquela senhora careta que ela vestia como se fosse uma máscara. Essa dualidade, essa contradição, eram vagamente inquietantes.”

Bom, Contardo Calligaris é doutor em psicologia clínica, um italiano radicado no Brasil, e não precisa de muito mais para perceber que Carlo Antonioni é um alter-ego dele. A mulher de vermelho e branco é a segunda incursão do escritor na ficção – depois de O Conto do Amor -, mais especificamente o segundo livro com o mesmo personagem central. A impressão que eu tenho é que o autor usa com tanta propriedade a experiência de mergulhar na mente humana que acaba fazendo do leitor o próprio paciente.

Carlo nos conduz pela história dessas mulheres, compartilha suas observações sobre o comportamento delas, até divide indagações e inseguranças. Mas ficamos bem longe de conhecermos ele a fundo. Exatamente como acontece numa terapia, quando pouco sabemos sobre a vida do psicólogo. O mistério é bem-vindo, nos deixa imaginar. No meio de uma investigação policial, o mais interessante é enxergar as situações como um grande parque de diversões psicológico.

Tenho que dizer que não encontrei um grande trabalho de lapidação de palavras na obra. O que não significa que não seja um texto inteligente e fluido. A minha aposta é que as próximas tramas do Calligaris serão ainda mais saborosas.

Pesquisando sobre ele, encontrei uma ótima entrevista na Marie Claire. Foi realizada em 2008, mas é tão legal como se tivesse sido feita hoje. Para se ter ideia, ele diz que o melhor filme sobre gravidez é Alien (1979) e que não tem interesse na felicidade: “a gente foi convencido pela ideia de que o sofrimento não deve fazer parte de nossas vidas”.

Foto de Contardo: Tom Cabral/ Santo Lima.

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Bula de remédio pode ser mais interessante

Publicado por em 29/08/2011 | Deixe um comentário

Mundo monstro - Adão Iturrusgarai

Não tem essa tirinha de jornal que passe pelas minhas mãos, sem que eu dê uma olhada. Vi essa na Folha de São Paulo e não resisti a trazer pra cá. Tem mais desse humor do Adão aqui.

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O tapa de Borges nos intelectuais

Publicado por em 5/02/2011 | 2 comentários

Há um tema caro, e, por isso, pouco exposto dentro do sistema literário. Entre escritores, editores, críticos, professores, observa-se o esforço em parecer sábio. É inegável que a intelectualidade não se faz apenas de especialistas, mas também do esforço em parecê-lo, por meio da reprodução de informações consideradas cultas.

Essas atitudes recheadas de hipocrisia encontram no argentino Jorge Luís Borges uma crítica sofisticada, delineada pela mais pura ironia. Na obra do escritor, dois contos podem ser destacados por darem “tapas com luvas de pelica” na sociedade culta: Funes, o Memorioso e Pierre Menard, autor de “Quixote”.

Senhor que parece com Jorge Luís Borges. Foto: Ricardo Greene

No primeiro, um excêntrico jovem que sempre sabia as horas ganha uma habilidade irreal ao sofrer um acidente, na cidade uruguaia de Fray Bentos. Inexplicavelmente, numa fatalidade que o deixou paralítico, ele passa a acumular na memória todos os fatos, detalhes, sensações sentidas desde então, uma sobreposição sem fim.

Um dos sinais mais fortes dessa crítica à hipocrisia intelectual no conto é que Funes, o jovem, em vez de lamentar a sua tragédia, a considera uma graça conquistada: “Pouco depois averiguou que estava paralítico. Fato pouco o interessou. Pensou (sentiu) que a imobilidade era um preço mínimo. Agora a sua percepção e sua memória eram infalíveis”. Ora, como poderia não ser uma dissimulação alguém não lamentar a total perda dos movimentos físicos?

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