Literatura holandesa. Foto: Byanca Dias

Bonita Avenue e Tirza: risadas nervosas acompanham aquela sensação de ‘onde isso vai dar?’. E O Homem Sem Doença promete.

Por Bianca Dias

O lançamento do novo livro de Arnon Grunberg, O Homem Sem Doença (editora Rádio Londres), serviu de ultimato: precisamos falar sobre os holandeses. Comecei as leituras de 2016, logo no início de janeiro, com Tirza, do mesmo autor. Iniciei e terminei Tirza, que tem 460 páginas, em cerca de três dias. Desde então, tive a sensação de que, nem tão cedo, leria algo tão genial quanto este livro.

O sentimento é bom e ruim: ao mesmo tempo em que é excitante ler um livro que cause tamanho impacto, cria-se um vácuo que permanece após a última página. Esse vazio tem um caráter um tanto misterioso: não é possível saber quando se vai passar por isso novamente. E nem com qual livro.*

Bonita Avenue, de Peter Buwalda, chegou perto. Lançado na Holanda em 2010, aportou por aqui no primeiro semestre deste ano (editora Alfaguara). Sem prejuízo de ter gostado mais de Tirza, Bonita Avenue é, na mesma medida, imperdível.

As comparações entre os dois livros vão além de terem sido escritos por holandeses contemporâneos (os dois nascidos em 1971).



As obras possuem vários pontos de contato: ambas são narradas pelo patriarca da família (ainda que Bonita Avenue conte com mais dois protagonistas, em relatos que se alternam ao longo da história), um homem de meia-idade, bem sucedido para os padrões médios, numa relação peculiar com uma das filhas – relação esta a qual toma proporções inesperadas no desenrolar das obras.

Ao longo dos dois romances, a figura do namorado da filha passa a exercer papel fundamental para a catarse final. As famílias se desmontam. Situações que parecem corriqueiras vão se transformando numa espiral que não se vê chegar; um redemoinho sorrateiro, discreto, que segue num crescendo vertiginoso e sem retorno, sem possibilidade de fuga.

Literatura holandesa 02. Foto: Bianca Dias

Risadas nervosas acompanham aquela sensação de ‘onde isso vai dar?’.

E é preciso seguir avançando, ligeiro, ansiosamente, para saber. Talvez as semelhanças ululantes parem por aí. Entretanto, as duas obras são exemplos da força de uma literatura que tem, recentemente, ganhado espaço no mercado editorial brasileiro. O que é uma grata surpresa, devido à qualidade dos volumes.

A tragédia humana, universal, é contada de modo primoroso. Em maior ou menor grau, a identificação com os conflitos de um ou vários personagens é inevitável. Está tudo ali: a necessidade de manter as aparências; as instituições – casamento, família – e o que elas ainda representam; as loucuras individuais que têm, ao mesmo tempo, caráter geral.

Nas palavras de Thomas Jerome Newton, o antheano de Walter Tevis, não é preciso que todos sejam loucos: ‘Só é preciso alguns doidos nos lugares certos’.

Quanto a O Homem Sem Doença (também publicado pela editora Rádio Londres), tentei comprar assim que soube do lançamento, mas a entrega era em 60 (sessenta) dias, então, por ora, desisti. Quando estiver disponível nas livrarias, passo em uma e levo. Quero chegar em casa com o livro em mãos e começar a ler de imediato. Não sei exatamente o que esperar, em especial devido às impressões causadas por Tirza. A expectativa, contudo, é alta.

Por fim, um conselho: se Tirza lhe interessar, não leia nenhuma entrevista com Arnon Grunberg acerca do volume. Li várias após ter terminado a leitura do livro, e, se não o tivesse lido, teria sido frustrante. Muito da exploração do romance e da curiosidade quanto ao que levou o autor a escrever desta ou daquela maneira passa por questões cruciais, antecipando trechos que, perdida a surpresa, diminuem a força da obra.

*Antes de Tirza, aconteceu a mesma coisa em 2014, quando li O Fundo do Céu, de Rodrigo Fresán. Entre O Fundo de Céu e Tirza foram quase dois anos de expectativa. A título de curiosidade, tive a oportunidade de jantar com Fresán e ganhar um exemplar autografado. Depois de Tirza e Bonita Avenue, corra atrás do seu, já que a obra é esgotada e a editora Cosac & Naify fechou.

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