Sabe aquela premissa de que “ler é viajar”? Aqui a gente comprova ela ao pé da letra. Faz é tempo que queria falar do blog Viaggiando por aqui, e finalmente chegou a hora. Como se não bastasse dar dicas bem interessantes de viagens, a Camila Navarro conta o desenrolar de um projeto que é todo #menos1naestante: A volta ao mundo em 198 livros. A ideia é simples e ousada: ler um livro de cada país do mundo, considerando todos os 193 países membros da ONU e seus dois estados-observadores (Palestina e Vaticano), além de Kosovo, Taiwan e Saara Ocidental.

A viagem de Camila começou em julho do ano passado, e lá se vão 56 livros lidos! Fiquei feliz que ela topou contar como tem sido essa jornada aqui no blog, respondendo umas perguntas. A experiência parece ser incrível. Quem ler e não ficar com vontade de fazer a mesma coisa, não pode ser normal.

Camila Navarro, do Viaggiando

Camila Navarro, do blog Viaggiando, contou sobre o projeto #198livros

 

Ler, por quê?

E como não ler? Eu sempre amei ler e mais tarde descobri que amo também viajar. Sei que foram os livros que despertaram a minha vontade de ver o mundo, de conhecer novos lugares e culturas. Acredito que através da leitura a gente consegue viajar sem sair de casa. Não haveria forma melhor de unir as minhas duas grandes paixões do que fazendo uma volta ao mundo através dos livros.

Para definir a ordem de leitura, você faz sorteio entre os países. Tem algum país suspenso na sua lista porque você ainda não conseguiu um livro de lá?

Ainda não consegui descobrir nenhum livro do Palau. Encontrei livros de estrangeiros sobre o país, mas como no projeto estou lendo apenas livros de autores locais, nenhum deles serviu. Tem algum palauense aí pra me ajudar? ;-)

O Turcomenistão também está suspenso enquanto aguardo a publicação do livro turcomeno The Tale of Aypi, em inglês. Entrei em contato com o autor, Ak Welsapar, e ele espera que seja publicado no ano que vem. Estou esperando!

Livro das Ilhas Salomão

Qual foi o livro mais difícil de conseguir até agora?

Ilhas Salomão foi o mais complicado. Eu até tinha o nome de alguns livros de lá em inglês, mas nenhum parecia estar disponível comercialmente. Depois de muita procura e trabalho em equipe com as meninas que se juntaram ao projeto, consegui comprar o livro The Alternative no site da editora da Universidade do Pacífico Sul, que fica em Fiji. Ele fez muitas escalas para chegar à minha casa e o frete foi bem mais caro do que o livro, mas deu certo!

Dos 56 lidos até agora, peço uma lista de 5 que os leitores do Menos um na estante não podem deixar de ler. E porquê.

Essa é a pergunta mais difícil! Bom, vou tentar pensar não só nos meus livros preferidos, mas também nos leitores do Menos um na estante, então vou falar só dos que podem ser adquiridos no Brasil, em papel ou digital. E mesclarei livros disponíveis em inglês e português. Vamos lá! [clique nos nomes dos livros para ver as resenhas de Camila sobre eles]

1. The Lady from Tel Aviv – Palestina: Foi um dos melhores livros que li até agora. Infelizmente ele não foi publicado em português, mas para quem pode ler em inglês acho que é uma excelente chance para entender a relação entre palestinos e israelenses. Com os conflitos que ocorrem agora em Gaza, acho que é um livro até mesmo necessário.

Livros mais indicados são de Angola e Tel Aviv

Livros mais indicados são de Angola e Tel Aviv

2. Os Transparentes – Angola: A literatura dos demais países lusófonos tem sido uma agradável surpresa para mim. Estou apaixonada! É uma delícia perceber as similaridades e diferenças do português falado, ou melhor, escrito aqui e nos outros países de língua portuguesa. Aqui poderiam entrar também os livros do Timor Leste e de Moçambique. Os Transparentes é um livro super gostoso de ler e eu com certeza explorarei mais as obras de Ondjaki quando terminar essa volta ao mundo.

3. The Past Ahead – Ruanda: Pode ser porque foi um dos primeiros livros do projeto ou talvez por ter sido uma leitura diferente do que estou acostumada, só sei que achei sensacional. O mais importante é que ele me mostrou o tamanho da minha ignorância em relação ao mundo.

4. Abril Despedaçado – Albânia: Para nos mostrar que o mundo é muito mais diverso do que a gente imagina. O filme brasileiro com o Rodrigo Santoro foi baseado nesse livro.

5. In the Shadow of the Banyan – Camboja: Depois de descobrir o que aconteceu no Camboja há poucas décadas a gente vê que a maioria dos nossos problemas não é nada. O livro é muito triste, mas é também muito, muito lindo.

Livros do Camboja, Ruanda e Albânia

Você desistiu de algum?

Os mais difíceis de ler até agora foram o da Lituânia e o do Uzbequistão, não por serem ruins, mas por serem mais complicados. Não cheguei a desistir, até porque sou dessa leitoras que têm agonia de largar um livro pela metade, mas já descartei uma das leituras. Foi no caso da Palestina. O primeiro livro que li (Touch, de Adania Shibli) foi bom, mas não me falou nada sobre a Palestina, então li outro livro de lá. E foi ótimo, pois o segundo livro – The Lady from Tel Aviv – acabou se tornando um dos meus preferidos! Quero ler outro do Saara Ocidental também pelo mesmo motivo.

Alguma das leituras lhe convenceu a conhecer o País em questão?

Este é o maior problema: a minha lista de desejos de viagem cresce a cada livro que leio! Hoje sou louca para conhecer Mali e Omã, por exemplo, países sobre os quais eu nem pensava antes. No mês que vem vou conhecer a Bulgária, tudo por causa do livro Streets without a Name. Não quero nem imaginar a minha lista de prováveis destinos quando eu chegar ao 198º livro!

Considerando essa visita à produção literária dos mais diferentes países (muitos sobre os quais eu nunca tinha ouvido falar), que observações você tem feito sobre essa forma de expressão que é a literatura?

Eu não sou especialista em literatura, pelo contrário, sou formada em Engenharia Elétrica. Sou uma mera consumidora de livros, portanto considerem que minhas observações são de uma pessoa leiga, tá?

Pra começar, há muito livro bom mundo afora! Nosso mercado de livros parece ser muito restrito e aqui não chegam muitos autores que merecem ser lidos. Tenho lido a maioria dos livros em inglês, simplesmente porque muitas vezes não há um único livro de certos países publicado aqui! O mais triste é ver a precariedade de literatura dos nossos vizinhos sulamericanos nas prateleiras brasileiras. O mesmo eu sinto em relação à África, um continente que eu estou descobrindo que tem muito mais semelhanças conosco do que eu imaginava. Agradeço aos livros digitais que me permitem ter acesso a livros do mundo todo com facilidade!

Outra coisa que eu descobri é que a boa literatura pode vir de onde eu menos espero, enquanto países com grande tradição literária me decepcionaram um pouco. Aqui eu preciso explicar o que busco com o #198livros: romances contemporâneos que representem a história e/ou a cultura de seus países de origem. Em geral, os autores do chamado Primeiro Mundo não estão muito preocupados em retratar sua cultura. A história que li da França, por exemplo, poderia se passar em qualquer lugar do mundo. Em outro momento eu teria gostado do livro, mas no projeto ele não se encaixou. Já os livros de países que passaram por crises recentes, como guerras ou independências, são os mais ricos culturalmente. Cheguei à conclusão de que a instabilidade é um excelente fermento para a literatura!

Por fim, não tenho nem como descrever o quanto eu estou aprendendo com esse projeto. Ler um livro de cada país do mundo está sendo uma experiência transformadora. Já não sou a mesma pessoa que começou essa viagem há pouco mais de um ano. Estou comprovando na prática que a literatura é capaz de mudar irremediavelmente a vida de uma pessoa.

Se mais alguém quiser embarcar nessa viagem, pode vir que as vagas são ilimitadas! :-)
Fotos de Camila Navarro.

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