colaboração especialíssima de Catarina Cristo

William Burroughs - Foto: Robert Mapplethorpe

Burroughs, um beat, fotografado por Robert Mapplethorpe que, ao lado de Patti Smith, são os personagens de Só Garotos

Quem gosta de livro é assim, vive pendurado nas newsletters das lojas on-line atrás de descontos e avisos de “frete grátis”. Quando aparecem, eu geralmente compro mais de um. E, numa deliciosa conincidência, dois livros que para mim não estavam relacionados vieram conversar na minha estante. E, também por acaso, escolhi lê-los na ordem certa e um acabou fazendo referência ao outro, colocando um livro dentro do livro e esse olhou para outro livro. Vamos a eles.

Os Beats (Benvirá, 2010) me apareceu num folhetinho de propaganda de natal de uma livraria. Recortei as capinhas dos livros que eu queria comprar, colei na agenda e guardei pra não esquecer. Esse título reúne duas paixões minhas: a geração Beatnik e Harvey Pekar.

Capas dos livros "Os Beats", de Harvey Peakar, e "Só garotos", de Patti Smith

Os Beats foram uma descoberta do fim da adolescência, nas estantes dos meus tios e na Biblioteca do CAC (Centro de Artes e Comunicação da UFPE, onde estudei) e me encantei mais com o espírito do que com as estórias: quebrar regras, sair da mesmice, testar limites, dar vazão aos instintos. Os Beats faziam isso no dia a dia e também na literatura. Foi minha “iniciação”, foi minha permissão pra arriscar, minha versão do punk.

De Harvey Pekar, eu tinha ouvido falar tanto e nunca tinha podido comprar. Já tinha visto American Splendor, já tinha lido sobre a amizade dele e de Robert Crumb mas as Hqs eram caras. Até que uma promoção numa loja on line (sempre elas) com vários títulos a R$ 10 trouxe ele aqui pra casa. Dá pra ler como se um amigo lhe contasse histórias e quando Crumb desenha pra ele as histórias ficam perfeitas. Tem sarcasmo, ironia e nenhuma autopiedade no texto de um e no traço do outro e eles juntos são, definitivamente, uma obra de arte.

Este Os Beats reúne vários roteiristas (entre eles Harvey Pekar) e desenhistas contando a biografias dos principais autores beats e as histórias dos poetas e da cena que precederam o movimento beat. San Francisco é o epicentro e a livraria City Lights, o núcleo da ação. Apesar de informativo e bem acabado, acho que este não é um livro para quem ainda não conhece o movimento beat porque mostra o lado obscuro daqueles escritores.

Seus livros são o lado bonito: iluminação através da liberdade, do jazz, das bebidas, das aventuras sexuais. Suas biografias têm drogas, assassinatos, pobreza, roubo, preconceito, machismo, misoginia, suicídio. Se você vê primeiro o lado bonito consegue entender depois que o lado obscuro foi necessário praquilo brotar. E que era o custo de ir trás de liberdade e jazz nos Estados Unidos do pós-guerra, obcecado pela ordem, pela segurança e pelo intento de dominar o mundo.

Minha sugestão é: Leiam On the Road, Uivo e Almoço Nu e aí peguem Os Beats pra ler. Mas é só uma sugestão, tá?

Capas dos livros "On the Road", de Jack Kerouac; "Uivo", de Allen Ginsberg, e "Almoço Nu", de William Burroughs

No mesmo pacote de Os Beats veio Só Garotos, de Patti Smith (Companhia das Letras, 2010). Eu tinha lido muitas histórias legais de Pati Smith no Mate-me, por Favor e este é o livro para qual este livro parece olhar.

Mate-me por favor é a história do punk, desde os primórdios. E Patti Smith é mesmo o primórdio do punk. Mas eu só conhecia histórias delas como cantora de rock e Só Garotos é anterior a isso. É uma autobiografia, contando a história dela com Robert Mappletorphe, seu namorado nos primeiros anos de Nova York que foi sua inspiração e pra quem ela foi musa. É a história de dois artistas em formação com uma única certeza: só podiam ser artistas. Um apóia, critica, participa do trabalho do outro e assim eles se constróem juntos.

É Patti Smith desenhista e poeta, morando no Hotel Chelsea, encontrando vários escritores beats no hotel, nas ruas e nas livrarias, sendo influenciada por eles e juntando massa crítica para o que, ela nem sabia, viria a ser o punk. Ter lido Os Beats imediatamente antes me deu as referência de escritores e poetas que circulam no livro de Patti Smith e muito da atmosfera de Nova York que fez uma poeta achar que guitarra e bateria a fariam expressar melhor sua poesia. Foi o livro dentro do livro.

A história e o cenário são bons por si só. Pra completar, Patti Smith escreve bem e a tradução é digna. Excelente pra quem gosta de Rock. Ou poesia. Ou biografias. Ou histórias de amor. Ou tudo isso junto.

Agradeço a Catarina Cristo por esse texto delicioso que o Menos um na estante ganhou de presente. Sigam ela no Twitter e confiram o http://maissimpl.es

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