Quando Mari me chamou pra participar de uma seção do blog dela, o de bubuia na bubuia, chamada “minha estante”, eu adorei. Era uma ideia que eu queria ter tido para o Menos um. Então ela propôs que fizéssemos juntas, convidando as pessoas e linkando os depoimentos de um blog para o outro. Só que eu nunca tinha convidado ninguém.

Até que o Alex Luna, mais conhecido como Tarrask, que é publicitário e tem ideias bem legais (vide o blog The Worst Kind of Thief – adoro esse nome!), estava contando no Twitter como a biblioteca dele estava se tornando virtual. Isso me despertou vontade de convidá-lo pra inaugurar a seção aqui e ele topou na hora. Mandou um texto que vale cada parágrafo, uma defesa pragmática dos e-books, observações sobre o futuro presente dos livros em papel. O Menos um na estante agradece :)

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Os prazeres do cigarro eletrônico

Livros lidos entre 1998 e 2004, aproximadamente

Livros lidos entre 1998 e 2004, aproximadamente

Meu nome é Alexandre e eu sou viciado em ler. Desde muito pequeno, sempre tive muitos livros em casa. Na pré-adolescência, meu pai me levava a sebos, onde eu despejava dezenas de livros lidos e trazia outras dezenas novas para casa. Há uns dez anos, comecei a anotar a quantidade de livros não-profissionais que eu leio. No meu ano mais profílico, passei dos 80.

Ontem, eu tive que fazer um largo trajeto de trem. Uma hora de ida, outra de volta. Situação perfeita para pegar um livro novo e começar a leitura no caminho. Se tivesse menos de 200 páginas, eu provavelmente acabá-lo-ia.

Aí eu descobri que não tinha absolutamente nenhum livro de papel não lido em casa, pela primeira vez desde que consegui ler uma placa que dizia Mimo do Céu, numa feira-livre. Um frio me correu pela espinha. Será que eu já tinha lido tudo? Será que os clássicos acabaram e agora eu só teria que repetir? Será que eu passaria ao outro vício, uma droga pior ainda?

Não era isso. Foi o resultado de um ano praticamente sem comprar nenhum livro de papel.

Vamos queimar a Biblioteca de Alexandria com Umberto Eco dentro

Durante 2010, descobri três grandes vantagens de ser leitor compulsivo e ter um leitor de livros eletrônicos.

# Vantagem 1: grana

Quando comprei um iPad, justifiquei a compra com o argumento profissional, estar atualizado, saber pra quê serve o troço. Também porque é um ótimo aparelho pra quem viaja e precisa estar online o tempo todo (e eu preciso ler o tempo todo, senão murcho). Mas a justificativa financeira é melhor: durante o ano passado, o que eu não comprei em livros foi menos do que eu investi no iPad.

Livros, gibis e feeds, muitos feeds

Livros, gibis e feeds, muitos feeds

# Vantagem 2: a disponibilidade de obras

Ao contrário do que dizem os puristas, a galera que diz que o livro vai acabar, yadda yadda, num Kindle é mais fácil ler Shakespeare ou Camões. Você tem dicionário e referências disponíveis na hora (e se você lê esses classicões sem referências, parabéns, é gênio ou tolo, provavelmente o segundo). Aliás, centenas de milhares de títulos estão ali, disponíveis para ler. Pensamos que nem todo livro está disponível em formato digital (não existe NENHUMA gramática da língua portuguesa disponível para a venda, vergonha das editoras luso-brasileiras) mas a quantidade de títulos é suficiente para saciar a minha voracidade de leitura e ainda sobra.

Ganhei o Graveyard Book, de deus Gaiman, e depois de lê-lo, comecei a ler O Livro das Selvas. Com um clique. Li em algum lugar uma referência a um conto de Tchecov, encontrei nos livros que já tinha baixado. Comprei e li o novo livro do Seth Godin. Adoro grifar e sublinhar frases e trechos, e logo depois da leitura, já tinha disponível no computador os meus próprios comentários, simplificando o processo de escrita do post-resumo do livro.

Só é difícil encontrar coisas em português

Só é difícil encontrar coisas em português

# Vantagem 3: transporte

De todas as mudanças que eu fiz na vida, esta talvez é a mais fácil. A grande maioria dos meus livros está numa estante na casa da minha mãe. São todos os que eu comprei e não emprestei até vir morar na Espanha, e mais uma ou duas malas de livros que eu já levei em outras viagens. Agora, só vou levar uma caixa, pequena, com os que pretendo usar em algum projeto, e o iPad.

Os poucos livros que vão acompanhar a última mudança

Os poucos livros que vão acompanhar a última mudança

Desvantagens existem no paraíso digital?

Dá pra procurar desvantagem em tudo. Vi uma palestra do Umberto Eco, quando estava lançando O Cemitério de Praga, e fiquei com muita vontade de lê-lo. Infelizmente, por questões de reserva de mercado, a versão eletrônica ainda não foi publicada. Como o livro foi diagramado num computador, podemos dizer que por decisão editorial. Ainda há muita gente lutando contra os livros digitais. Vamos chamá-las de MPAA editorial.

Se você só lê em português, é mais difícil encontrar coisas boas. O Brasil está há uns cinco anos de distância do mercado dos EUA.

Muita gente diz que tem fetiche pelo cheiro do papel. Outros, que não dá pra matar barata no banheiro. Outros que vão ficar com dor de cabeça. Se você pensar bem direitinho, é tudo desculpa. Um livro é um objeto físico tão desajeitado e incômodo como um vinil. Possui os mesmos chiados, a dificuldade de fazer uma errata, de fazer uma consulta, um índice inteligente, etc.

Saudosistas sempre existirão, mas ler em papiro, que é bom, ninguém quer.

Depois do livro eletrônico, vamos queimar a estante?

Será que só eu penso que Fahrenheit 451 não é sobre papel, mas sobre ideias? Se você vai ao teatro e vê Romeu e Julieta, continua sendo Shakespeare. Não importa se é papel, papiro ou e-ink, Platão continua falando sobre cavernas e o Cântico dos Cânticos continua sendo um livro erótico.

Hoje, tenho livros em papel, outros na minha conta do Kindle, comprados ou baixados gratuitamente, e também no iBooks, o programinha do iPad para a leitura de materiais digitais. Continuo emprestando, dando, trocando, comprando e vendendo. Publiquei meu livro em papel e em digital, e quem quiser, lê do jeito que quiser.

Como usuário, hoje, prefiro comprar um livro eletrônico, exceto se for um livro de fotografia. Gosto mais de hipertexto que de texto. Preferência pessoal.

Se você quer continuar andando de tílburi, enviando uma carta para o catálogo que veio no jornal para encomendar livros de papel e lê-los à luz de velas na sala enquanto escuta a pianola ou o vinil, fique à vontade.

Apêndice

Depois de escrever o texto anterior, comprei os 4 volumes da Jogo de Tronos, versão digital. Preço: 4 pelo preço de 2. Aqueles livros de fantasia, mil e cacetada páginas cada um. Sério, dá vontade de reler O Senhor dos Anéis. A primeira vantagem óbvia é a leveza. Ler livrões de bilhões de páginas é o primeiro exercício que um nerd faz. Agora é moleza. Além disso, dá pra levar a coleção inteira. Viajei durante a semana, e durante o voo, espera em aeroporto, noite e tal, consegui ler um livro e meio, simplesmente porque sempre tinha disponível algo.

A outra vantagem, que parece besta, mas para quem lê em outra língua é genial, é a facilidade de consultar o dicionário. Você pode se achar mega-bilíngue, 20 anos de Cultura Inglesa e o escambau, e mesmo assim não sabe o que raios é um auroch (é uma espécie de boi medieval, que está extinto desde 1624). No livro normal, você não pára e consulta o dicionário, né? Aliás, você pode até continuar lendo, porque o dito boi só aparece no livro sendo devorado em banquetes e festins reais. Mas é muito mais gostoso consultar o dicionário simplesmente botando o dedo em cima. Sério.

Uma desvantagem, pra vocês não acharem que eu sou só elogios, é saber quantas páginas eu li. Como você pode configurar o texto para qualquer tamanho, a medida de palavras por página fica relativa, e você não consegue saber direito quantas páginas faltam para acabar o capítulo ou o livro, já que eu comprei uma versão que são quatro obras no mesmo arquivo. Mas pelo descontão que eu tive, acho que valeu a pena.

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Temos aberto um debate ou não temos? O que você acha?

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