Há um tema caro, e, por isso, pouco exposto dentro do sistema literário. Entre escritores, editores, críticos, professores, observa-se o esforço em parecer sábio. É inegável que a intelectualidade não se faz apenas de especialistas, mas também do esforço em parecê-lo, por meio da reprodução de informações consideradas cultas.

Essas atitudes recheadas de hipocrisia encontram no argentino Jorge Luís Borges uma crítica sofisticada, delineada pela mais pura ironia. Na obra do escritor, dois contos podem ser destacados por darem “tapas com luvas de pelica” na sociedade culta: Funes, o Memorioso e Pierre Menard, autor de “Quixote”.

Senhor que parece com Jorge Luís Borges. Foto: Ricardo Greene

No primeiro, um excêntrico jovem que sempre sabia as horas ganha uma habilidade irreal ao sofrer um acidente, na cidade uruguaia de Fray Bentos. Inexplicavelmente, numa fatalidade que o deixou paralítico, ele passa a acumular na memória todos os fatos, detalhes, sensações sentidas desde então, uma sobreposição sem fim.

Um dos sinais mais fortes dessa crítica à hipocrisia intelectual no conto é que Funes, o jovem, em vez de lamentar a sua tragédia, a considera uma graça conquistada: “Pouco depois averiguou que estava paralítico. Fato pouco o interessou. Pensou (sentiu) que a imobilidade era um preço mínimo. Agora a sua percepção e sua memória eram infalíveis”. Ora, como poderia não ser uma dissimulação alguém não lamentar a total perda dos movimentos físicos?O personagem de Borges, “o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e quase intolerantemente preciso”, no entanto, era incapaz de concatenar as ideias, raciocinar: “Suspeito, contudo, que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, generalizar, abstrair”. É imediata a comparação com certas figruas do meio intelectual, que mais parecem catálogos de informações do que interpretadoras de ideias, criadoras de novos sentidos.

Caderninho

Recado similar pode ser encontrado em Pierre Menard, autor do “Quixote”. O personagem que dá nome ao conto é um homem de várias ações, cuja “admirável ambição era produzir umas páginas que coincidissem – palavra por palavra linha por linha – com as de Miguel de Cervantes”. Em vez de ser mal julgado por esse desejo, Menard é considerado o criador dessa grande técnica, uma espécie de reescritura cujo resultado seria infinitamente superior ao original. E Pierre é elogiado sem nunca ter, de fato, escrito o seu “novo Dom Quixote”.

Borges parece chicotear, com a sutilidade que lhe é peculiar, os escritores que desenvolvem sua sobras com o intuito de conceber ‘o novo livro tal’ ou ‘o novo autor tal’, em vez de seguirem as suas próprias inquietações. São artistas que não acrescentam nada ao mundo com suas obras copiadas. E, ainda assim, são tantas vezes exaltados no meio literário, como faz, com certa imbecilidade, a voz narrativa do conto de Pierre Menard.

*O texto foi um exercício de crítica para a cadeira de Literatura da especialização em Jornalismo e Crítica Cultura da UFPE. Foi escrita em umas duas horas à mão, com base nos dois textos de Borges. Tentei fazer um tipo de crítica que admiro, que é aquela que se basta, flui e acrescenta independente das obras analisadas.

Fotos de azotesdivinos e e_walk.

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