A tarefa de casa da pós-graduação era escrever uma resenha sobre um produto cultural de um estrangeiro que abordasse o Brasil, a fim de avaliar a relação entre cultura global e cultura local. Decidi logo que seria um livro, pelo projeto #menosumnaestante. E depois de uma consulta aos universitários e algumas opções em mãos, escolhi Os Meninos do Brasil, do norte-americano Ira Levin.

Até quase a metade das páginas, eu pensei que o máximo que ele renderia, além do trabalho, seria um post sobre como é ruim se descobrir lendo um livro ruim. Afinal, eu saí de um Gonçalo M. Tavares. Mas no meio do caminho, a história me capturou e vi que não poderia ser tão injusta. Os Meninos do Brasil não é boa literatura: para vocês terem ideia, costumo anotar num caderninho trechos marcantes das obras, e dessa eu não anotei uma linha. Mas é uma história de ficção científica bem escrita.

No Brasil da década de 70, um médico nazista reúne um grupo de ex-oficiais de Hitler para cumprirem a missão de matar 94 homens de 65 anos em vários países da Europa. É a primeira fase de um plano para instaurar o IV Reich. Pistas dele chegamao judeu “caçador de nazistas” Liebermann, que é o Sherlock Holmes da história. Se não quer saber o final do livro, pare por aqui.

Descobre-se, depois de muitas páginas, que a conspiração envolvia avançada tecnologia molecular: o médico Josef Mengele conseguiu criar crianças-clones e espalhá-las para adoção por famílias “perfeitas” da Europa. Bebês com as características da “raça ariana”, mais especificamente clones de Hitler. Os assassinatos eram mais um cuidado dos conspiradores para reproduzir o ambiente social em que o líder nazista, que perdera o pai quando era adolescente, vivera.

O mais bizarro foi constatar que o médico Josef Mengele (fotos abaixo), mais conhecido como “O Anjo da Morte”, existiu e realmente executou inúmeras e hediondas experiências com gêmeos judeus prisioneiros de Auschwitz.

Registros indicam que ele se refugiou no Brasil, mais especificamente no Rio Grande do Sul. No ano passado, o jornalista argentino Jorge Camarasa lançou o polêmico livro O Anjo da Morte na América do Sul, onde explora a passagem do alemão por aqui. O escritor aborda os rumores de que o médico teria, usando nome falso, continuado suas experiências no País, e assim influenciado o alto índice de gêmeos na pequena cidade de Cândido Godói (RS), por volta de 1963. Em vez da média nacional de um parto de gêmeos em 80, na época, o lugar teria um desse para cada cinco partos.

Muitos cientistas negam a possibilidade, mas ela é super intrigante. Saiba mais aqui, aqui, aqui ou aqui.

A única coisa que dá para concluir é que esses rumores inspiraram o romance de Ira Levin, o dramaturgo e escritor que faleceu em 2007. A história foi transformada em filme, em 1978. Ele explorou bastante o suspense, sendo inclusive lisonjeado com comparações com Hitchcock. O filme O Bebê de Rosemary é adaptação do livro dele chamado A Semente do Diabo.

Ira Levin

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